Esse episódio do milhão de reais doado e reclamado de volta, que envolve a família do banqueiro Pedro Conde e a faculdade de direito da USP, é ilustrativo das convicções econômicas que circulam na sociedade brasileira.

Por um lado há uma família milionária que não enxerga o repasse de dinheiro como doação, mas como contratação de um serviço: o dinheiro em troca de uma placa e de ter o nome do banqueiro no auditório. Não se pensou em educação, futuro do país, investimento, filantropia, ciência, devolver à coletividade algo que se ganhou justamente em cima dessa mesma coletividade. Como pagou mas (alega-se) não levou, foi à justiça pedir ressarcimento (aproveitou e incluiu nas reclamações supostos danos morais).

Por outro, uma parte da USP condenou o negócio feito pela faculdade, onde viram negociata e, num caso flagrante de visão encurtada, nada mais. Uma das causas desse mal pode ser politiqueiro: fazer oposição a tudo que venha do autor da ideia, Grandino Rodas, à época diretor da faculdade e agora reitor da universidade. Mas desconfio que ele tenha mesmo raízes ideológicas: todo veto a qualquer dinheiro que não venha do Estado, porque (supostamente, bem supostamente) este vem sem segundas intenções – ao contrario do dinheiro do banqueiro, que veio cheio delas.

De um lado temos a lógica do lucro: não me peça para dar a única coisa que eu tenho para vender (e se eu posso vender até o uso do meu nome, não me peça nada). Do outro, a lógica do estado forte, paternal, que garantirá que nossas instituições sejam do povo e para o povo, sem marcas de terceiros.

Em suma, temos um pouco do pior de duas maneiras de pensar a economia e o mundo. E se assim for (e assim é), não temos nada, já que a USP pode ter mesmo de tirar de onde não tem para devolver, e a família vai, sei lá, comprar um quarto e sala em Higienopolis com o que receber.

Diego Damasceno escreve às terças

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