A galinha está enclausurada num círculo riscado na terra. Não conhece amor, nem sonho, nem dança, nem desconfia que possa gritar ou fugir. Só sabe ficar lá sendo galinha.

Da varanda, o homem que a fez prisioneira acompanha seu solitário tormento, dia após dia, após dia, após dia, imaginando, com sua mente limitada, que galinha sofre. Ele se acha muito inteligente, quase um filósofo, porque gosta de livros, sempre os grossos que pesam os braços, por demorarem mais de acabar.

Para unir seus dois afazeres favoritos no mundo inteiro, lê na cadeira de balanço que fica na varanda. O livro que ele tem nas mãos agora é A montanha mágica, de Thomas Mann, muitas páginas, enorme, e está apreciando bastante, apesar de em verdade entender pouco. Mas desde pequeno aprendeu a arte da auto-enganação e então descobriu, surpreso, nas páginas que corriam em língua desconhecida, que sabia até falar francês.

Mas o que o fez parar novamente para olhar a galinha, nesse minuto, foi reparar numa coisa que estava ali escrita chamada liberdade do fracasso, como o sentimento do menino que perde na prova da escola e fica enfim aliviado, porque não suportava mais a agonia de estudar, de não estudar, de fazer a prova, da esperança de passar, e agora finalmente respira livre, inebriado debaixo da árvore.

O homem de mente limitada pensou se sua galinha sentia isso, esquecendo-se de que apenas os homens fracassam. As galinhas só morrem.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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