Em uma lista de 30 itens com “Segredos e Técnicas para a Prosa Moderna”, Jack Kerouac disse, bem no décimo lugar, que “Não há tempo para poesia, mas exatamente o que é”.

Mas Jack Kerouac também é o cara que escreveu:

“They danced down the streets like dingledodies, and I shambled after as I’ve been doing all my life after people who interest me, because the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones that never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn…”

que, como outras tantas passagens de Pé na Estrada (On the Road, em inglês), é um dos grandes poemas modernos no sentido, na cadência, no som e, caso eu soubesse como classificar e medir isso, talvez na métrica também.

“Bili com limão verde na mão”, o livro infantil lindo de Décio Pignatari que li ontem, me lembrou que poesia só fez parte da vida mesmo no segundo grau,  com trabalhos obrigatórios sobre concretismo e professores – uma em especial, como sempre – cujos olhos brilhavam ao falar de Manuel Bandeira. E a gente gostava.

Vamos, que nem todos gostávamos. Mas também não posso dizer que gostava sozinha, já que tinhamos uma – aqui um esforço contra a vergonha de confessar – “Sociedade dos Poetas Mortos”, que se reunia periodicamente nos intervalos pra ler coisas que gostávamos e que – adolescência suprema – fazíamos.

Não vou perder tempo discutindo por que se chamava sociedade dos poetas mortos, será um combinado entre mim e os leitores deste texto. Atire a primeira pedra quem nunca assistiu “House” para matar as saudades de Neil e nem deu uma espiada em “The Good Wife” para ver Knox Overstreet de novo.

Aí a Sociedade parou de se reunir porque sim (ainda tenho a pasta estufada com os poemas, um beijo) e, salvo o último poema que me lembro de ter sido dedicado a mim – direto da antologia poética, página tal, leia aí que me lembra você – todas as futuras referências poéticas viraram letras de músicas daí por diante.

Leio poucos poetas novos, quase nenhum, porque não sei mesmo quem são, não tenho mais professores para me dizer quem ler, não procuro sempre. É possível que o mundo esteja pior ou os escritores; que a atual preocupação com o pragmatismo educacional tenha feito com que as pessoas não tenham mais vergonha de não ler, não conhecer, não gostar de poesia; que Jack Kerouac metido a agente da ruptura literária tenha vencido e todos nós só tenhamos tempo mesmo para “o que é”.

Mas ele nunca leu Drummond.

O Instituto Moreira Salles está tentando emplacar o Dia D em 31 de outubro, em comemoração ao nascimento de Carlos Drummond de Andrade, como se fosse o nosso Bloomsday. Nada mais justo que seja para quem fez a melhor poesia “do que é” em português brasileiro, semi-prosa, total honestidade e sentimento.

Aos Kerouacs, que assistam “Necrológio dos desiludidos do amor”, aqui na leitura de Fernanda Torres, parte da série de leituras de Drummond que o IMS está coletando. E que ouçam “A morte do leiteiro”, na voz de Paulo Autran. Aliás, baixem – ou comprem, calma Ecad! – o CD inteiro em que Paulo Autran recita Drummond, e já que estão aí, procurem também aquele em que ele recita Fernando Pessoa. Coloquem no iPod e me digam depois, quando ele aparecer no meio de dois rocks e fizer vocês chorarem.

Se sobrar tempo, leiam Oceania e digam se não é um belo poema para se dedicar a alguém, página tal, leia aí que me lembra você.

Camilla Costa escreve as quintas-feiras.

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