Se existe algo de que sempre me orgulhei, foi de ser um bom amigo. Como aprendi que não é auspicioso a coruja gabar o toco, mantive essa certeza guardada no peito e respaldada pela afirmação de outras pessoas. A satisfação em ter bons amigos é o enriquecimento pessoal que cada troca de experiência traz. Toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas – como bem definiu o menino que desceu o São Carlos.

E essas marcas por vezes nos transformam. Graças ao melhor amigo da época ginasial, me tornei menos tímido, mais popular e até, admito, um pouco canalha. A pesca (cola) que eu passava era uma retribuição a cada ensinamento que ele – quase dois anos mais velho – ministrava a caminho da Escola Mário Campos Martins. Atentamente escutava e admirava a espontaneidade que ele imprimia às desventuras adolescentes típicas da fase. Eu montando Pé-de-pano, o fiel cavalo que era meu transporte, trotava lentamente pra prolongar a jornada – saudades de morar na roça.

Essa amizade foi desfeita quando seguimos rumos diferentes. Outras a sucederam, e com muitas o aprendizado não foi tão ditoso. Misturar amizade e negócios, por exemplo, não recomendo a ninguém. Se ruir uma amizade não é aprazível, ao menos fica a sensação de que algo benigno brotou dali. As lembranças e estórias não morrem, ainda que o estranhamento posterior seja um estorvo – Somos dois navios cada um dos quais com o seu objetivo e a sua rota particular” resumiu Nietzsche sobre a situação.

Lidar com essa situação de perda, de esvaziamento, é algo que aprendi cedo. Dionísio foi o primeiro comparsa de traquinagens. Ele nem era tão traquino, na verdade era bem sereno, com um rosto sempre lívido, o cabelo meio gazo, um pouco encaracolado e uma aparência frágil que condizia com a sua natureza mofina. Eu, que era seco de ruim – como alertava minha tia – me sentia poderoso ante à debilidade física de Dionísio. Como ele era afilhado de minha tia (na roça afilhados são realmente quase como filhos) passava muitos dias lá no sítio, o que para mim era sempre vantajoso pois teria com quem brincar – filhos únicos sofrem de solidão patogênica.

Em uma manhã banal, tomávamos café com beiju no banco embaixo do pé-de-tangerina (ou seria seriguela? A memória embaça às vezes) quando, subitamente, Dioníso joga a xícara plástica para cima, cai e começa se debater convulsivamente. Assustado, observo minha tia prender seus braços enquanto meu tio segura a cabeça. Ele se contorcia, babava e tremelicava todo. Não sei precisar quanto durou a crise epiléptica. Ele tinha oito anos. Eu, apenas sete. Aquela cena nunca saiu da minha memória. Presenciei outras crises, algumas interrompiam o jogo de bola ou a gude. Só lembro visualmente da primeira que presenciei, mas tenho certeza de que nunca me aproximei pra ajudá-lo nessas horas.

Não tinha noção da enfermidade, mas a temia como gravíssima, ainda que, logo após a crise, ele se recuperasse e, meio zonzo, voltasse à tona, sem qualquer recordação do que acontecera. Muitos anos depois descobri que Machado de Assis e Fiódor Dostoievski também eram epilépticos. O russo admitia publicamente o distúrbio “sim, eu tenho a doença das quedas, a qual não é vergonha para ninguém. E a doença das quedas não impede a vida”.

Não impede mesmo, mas Dionísio morreu um ano depois, num acidente que vitimou outros amigos, parentes e meu tio. Era uma romaria e ficou marcada como um dos maiores acidentes rodoviários da história da Bahia. Uma história que eu, como um dos sobreviventes, talvez um dia tenha coragem para contar.

Algumas vezes me perguntei o que seria do meu primeiro amigo caso fosse vivo, ou o que ele teria realizado. E me condenei por não ter lhe ajudado em alguma de suas crises convulsivas. Mas através dele compreendi que a vida é uma luta diária e que é preciso levantar após cada queda. Mesmo sabendo que, a qualquer momento, você pode cair novamente e teu amigo não te socorrer.

Alex Rolim escreve aos sábados

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