Era pequena e antes de dormir fechava o olho tão forte, tão forte, para descobrir o que morava por trás do escuro. Só podia ser Deus ou o segredo, que era de novo Deus. Por mais que me esforçasse, noite após noite, ele nunca apareceu lá do fundo provando que existia e garantindo que eu podia dormir tranquila sem medo dos monstros. Nunca.

Mesmo assim ia pra igreja, e lia na missa, e fiz até catequese (porque podia ser que algum pecado nublasse a vista). Era tudo tão encenado que só podia ser de mentira. E então por vingança fiz com que morasse na estante de todas as coisas que odiava, bem lá no alto, para que por minuto sentisse a vergonha do estelionato (e sua estátua ia mudando de cor a depender do meu estado de espírito, como o galo da casa de minha vó que anunciava chuva, o vermelho sendo tudo o que eu não queria sentir).

Mas foi de novo em vão, menos inteligência que burrice, porque nada pode ser mais belo do que o que não existe. Os sonhos todos, no fundo, são Deus, e Deus dentre todas a invenção maior do criador, o homem, para que nunca tenha que estar só, para que nunca veja inválida sua dor, para que resguardados estejam seus amores enquanto estiver distante.

Para que dispensar tal feito, se a altivez nem chega perto de pagar o desamparo? Então, Deus, ajoelho em capitulação e rogo o milagre da ilusão, do encantamento, da crença, da fé, da boa sorte. Eu aceito.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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