Diz esse blog que o escritor americano F. Scott Fitzgerald tinha, em um de seus cadernos, uma lista de premissas e ideias para histórias que nunca foram escritas.

Invejei-o, naturalmente, porque nunca consegui manter uma lista como esta. As minhas ideias só aparecem na quarta-feira de madrugada, sob o peso de ter que escrever. Com muita sorte, virão na terça-feira à tarde. Um suplício eterno para o editor-chefe de O Purgatório que, se eu não suspeitasse ter uma quedinha por mim, sei que me odiaria.

As ideias sobre o que escrever devem ser, acredito, como as ideias sobre o que filmar, ou o que compor, ou o que pintar. Ideias para textos são voláteis e pouco misericordiosas e suspeito que o são para nós, pés-de-chinelo escrevendo em blogs, como eram para Fitzgerald, se é que algo nos une.

Há um período limitado no qual elas sobrevoam sua cabeça – que pode ser de horas ou de anos. Se você não souber agarrá-las e utilizá-las dentro desse período, elas vão embora. Alguns tentam prendê-las por mais tempo em cadernos, pedaços de papel e arquivos de Word, mas nem assim.

O outro motivo pelo qual invejei Fitzgerald é que, mesmo nas poucas vezes em que cheguei perto de uma boa lista, não consegui ter ideias como:

  • A estória de um homem tentando esquecer o seu passado e o encontrando em todos os lugares;
  • Pai ensina filho a jogar em uma máquina de azar; depois o filho, inconscientemente, perde sua namorada na máquina;
  • Jovem mulher cobradora de dívidas começa a cobrar dívidas de um homem falido. Elas provam ser morais, além de financeiras;

Ou:

  • Família se separa. Isso deixa marcas nos três filhos, dois dos quais se arruinam tentando manter suas famílias unidas e um terceiro com quem isso não acontece;
Esta ideia na verdade me lembra uma história real, que suspeito, ainda verei encenada como pensou Fitzgerald com alguns membros da minha própria família. Talvez por isso não conseguisse contá-la. Ainda estou esperando pelo final. Talvez fosse também o caso dele. E ainda temos a genial:
  • Peça sobre um monte de pessoas velhas – coisas terríveis acontecem com eles e eles não se importam;
que poderia ser o resumo da história da humanidade. E a simples e lindíssima:

  • Menina e girafa;
que já consigo imaginar como o título de algo que eu gostaria de ler e pensar em possíveis ilustradores para as edições de colecionador.
A revista americana McSweeney’s publicou, em 2007, uma edição em que escritores retomavam algumas destas ideias (e outras ótimas como “Garota cujo ouvido é tão sensível que ela pode ouvir rádio. Homem a tira de um hospício para usá-la”) em contos que não li, então não posso dizer se eram bons. Mas francamente, duvido um pouco.
Aposto que Fitzgerald também olhou para sua lista em alguns momentos e pensou que nem todas aquelas premissas – geniais quando condensadas – poderiam ser bem desenvolvidas por ele. Mas elas ficavam ali porque é bom ver que o que não conseguimos dizer também existe dentro de nós. Só é preciso aceitar que volta e meia – uns com (muito) mais frequência do que outros – ficaremos sem saber o que escrever.
Camilla Costa escreve penosamente às quintas-feiras.
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