Sir Laurence Olivier põe desoladamente a cabeça entre as mãos e pragueja:

-Ela está me devorando.

A cena reproduz relato real transformado em filme pelo diretor Simon Curtis e externa o desespero do ator-diretor anglófono diante da incapacidade de lidar com a irresponsável imprevisibilidade de Marilyn Monroe. Muito mais que isso, é a constatação do final reservado a todo homem: ser devorado, continuamente ou não, pelas mulheres.

Há muito mais significação nos relatos de “My Week With Marilyn” que o de apenas desnudar as fragilidades, expor dificuldades cênicas ou pormenorizar detalhes íntimos da estrela hollywoodiana. Sim está tudo lá, deslavadamente visível, sem o glamour que geralmente marca esse tipo de película. Sem preocupação em explicar ou macular o mito, atento apenas às facetas que transformaram uma garota frágil no ícone feminino pop do século XX.

Como uma força da natureza que arrebata, a loira possuía o latente talento persuasivo que, sabemos, todas as mulheres herdaram de Eva ao induzir Adão a provar da delícia do fruto proibido. Convencer sem ser convincente, atrair parecendo ingênua, cativar sem empregar esforço… essa aleivosia tão desejável quanto fascinante e que é uma das molas propulsoras da história humana.

Sem essa aptidão Helena não levaria Tróia à destruição, Ana Bolena não causaria cisão na Igreja Católica e Bin Laden estaria vivo. Não teríamos a Divina Comédia de Dante – que enfrentou o Inferno e o Purgatório por Beatriz – nem um sem-fim de outras grandes obras artísticas. Sim, amigos, a malícia de toda mulher é muito mais que um mero dom de iludir.

A malícia é o mecanismo perfeito de sedução. Seja uma malícia descarada como a de Ângela Carne e Osso, cínica como a de Lorelei Lee ou enigmática como o sorriso da Mona Lisa.

Pois mesmo na virtude de Penélope, há a malícia astuta de impor a sua vontade, na peça desmanchada às escondidas ou no arco impossível de encordoar.

E quando associada a uma beleza estonteante e lasciva como a de Marilyn é uma combinação terrivelmente sedutora. Sedutora não apenas no sentido corriqueiro que conhecemos, mas também naquele definido por Baudrillard quando recorre à etimologia – seducere / se-ducere = afastar da via. É uma beleza que nos afasta de tudo ao redor, que magnetiza as atenções apenas para si.

E se o grande Virgilio declarou Varium et mutabile semper femina* foi porque ele não se debruçou sobre essa brejeirice levemente pudica comum a todas elas. Não o culpo. Ele não conheceu alguém que deixasse isso tão evidente como Marilyn.

Se conhecesse, seria devorado.

*A mulher é mutável e inconstante.

Alex Rolim escreve aos sábados 

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