Você lembra, Rosa, de cada Aureliano querendo por tudo mudar o destino e caindo sempre  no mesmo lugar, lembra? Eu ando pensando nisso. E aquela história que você me contou uma vez da pesquisa do jornal que dizia assim mais ou menos: depois de um certo tempo, as pessoas que ganharam na loteria voltaram a ser o que eram. Podia ser alegre, continuava alegre, podia ser triste, continuava triste. Mas agora me diz, Rosa, se essa pesquisa pode ser boa, se eles podem juntar um grupo grande de gente que ganhou na loteria, sendo que eu nunca conheci ninguém. Foi em todos os países do mundo?

E teve também aquele escritor, eu li na revista, que fez um discurso para uma turma de uma universidade americana e ele falou que o mais importante não era nada, era aprender a pensar, era saber encontrar um caminho, mesmo no turvo. O que tinham que fazer, eles, os alunos, era buscar uma maneira de vencer o tédio, que é a falta de graça, sem ter um dia que enfiar uma bala na cabeça. Na alegria da formatura, ele foi lá falar essa tristeza. Rosa, você sabe como ele morreu? Com uma corda no pescoço. E será se ele já sabia naquela horinha que estava falando que ele mesmo não tinha achado o jeito?

E eu fico vendo agora, Rosa, que já estou de idade e tenho as provas, como tudo encontrou uma maneira de voltar para o princípio, sempre e toda vez, como se fosse coisa escrita. E eu segui sendo como já era, mesmo se às vezes ficava convencida de que tava muito mudada.

Mas olhe, Rosa, que meu pai antes de morrer andou de estar por aí caindo,  mas não queria dizer que tava velho, e aí uma vez falou assim: eu só me apartei da cama porque apareceu a mão de minha mãe estendida e eu fui tentar apertar. Você acha que isso foi sonho ou a minha vó que nem conheci veio mesmo dizer que ia levar ele? Eu ando pensando nisso.  Eu vou sentir tanta saudade daqui, Rosa, e de você.  Já estou até sentindo.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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