O Congresso Internacional dos Ex-amores começa com uma dinâmica de grupo para quebrar o gelo.  É sempre necessário, visto que, sem periodicidade definida, o encontro só acontece quando um novo membro se filia ao grupo.

A dinâmica consiste, desde a primeira edição, em um jogo de palavras relacionadas a um tema específico. No primeiro Congresso, que já tinha quatro membros, cada um teve que dizer o seu apelido conjugal mais frequente. No segundo (seis membros) foi preciso lembrar-se de qual era o motivo de discussão mais corriqueiro.

Este momento, como esperado, rende piadas e cria um ambiente descontraído para o jantar que se segue, onde são servidas a cada um as iguarias ou guloseimas que lhe eram mais frequentemente regaladas pelo(a) denominador comum da mesa. Pode ser uma refeição tensa, caso haja demasiadas semelhanças entre os pratos dos presentes.

Depois do jantar, todos são despachados a uma sala aconchegante com bebidas digestivas, onde começa a parte mais importante do encontro, a terapia de grupo.

É nela que os convidados são chamados a compartilhar particularidades de seus relacionamentos com a mesma pessoa: por que se amavam (se for o caso), por que brigavam, por que chegou ao fim, o que funcionava bem.

Invariavelmente, à medida em que as horas avançam e avançam também as garrafas, toda a mágoa dá lugar às boas memórias. É aí que voltamos aos chocolates deixados como um gesto de carinho (que chocolates eram? e onde costumavam ser deixados?) às recepções em aeroportos, às dedicatórias em livros lembradas em detalhes.

No dia-a-dia, os ex-amores dificilmente se encontram, salvo em situações de acaso um tanto embaraçoso para as duas partes e também para a terceira, que fica sabendo. Menos ainda confraternizam sobre intimidades passadas com a mesma pessoa.

Por isso mesmo, o Congresso Internacional dos Ex-amores permanece como uma oportunidade única para que cada indivíduo observe, de uma perspectiva exógena, que tipos de relações viveu.

Convém estar atento a demasiadas semelhanças, que indicam a vivência mais de uma ideia específica de relacionamento do que a riqueza de relacionar-se com pessoas diferentes.

E também a demasiadas diferenças, que podem indicar um comportamento excessivamente moldado às particularidades de cada novo amor.

Nos melhores cenários, ex-namorados(as) deixam o encontro com uma gostosa nostalgia pacífica – que alguns atribuem ao efeito das bebidas digestivas – de quem sabe que viveu algo eterno enquanto durou. Sem falar, é claro, da camaradagem que só é possível entre pessoas que já amaram o mesmo alguém (e não se arrependem).

Nos piores momentos, a reunião deixa a muitos com a incômoda sensação de terem sido menos – ou mal – amados. Por uma falta de sorte – “nos conhecemos imaturos demais” – uma injustiça – “ela não me deixou fazê-la feliz” – ou, o que se considera um dos golpes mais duros, a repetição – “fui só mais uma na lista de namoradas idênticas dele”.

O efeito do Congresso nos denominadores comuns em questão, únicos que podem promover tal reunião com seus ex-amores, ainda não é suficientemente conhecido.

Apesar de amplamente recomendado por psicólogos, nefelibatas e amigos conselheiros em todo o mundo, poucos tem coragem de realizá-lo.

Camilla Costa escreve às quintas-feiras.

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