Tenho a lembrança de um chapéu de palha e dentro dele a cabeça do meu tio (um tio gordo que usava bigode, era meio careca e alcoólatra e que morreria dali a algumas semanas, como seu irmão mais velho anos antes e seu irmão mais novo, anos depois). Estou sentado sobre um balcão do mercadinho e ele me ensina a escrever meu nome. Lembro do P redondo que ele me impunha enquanto segurava meu pulso.

Ao mesmo tempo uma camisa vermelha voa para longe do carro depois de vê-la tremulando durante minutos ou horas contra o amarelo da vegetação na beira da estrada. Não lembro para onde eu estava indo. Cavo túneis na areia de uma construção ao lado da minha casa. São cavernas para meus soldadinhos verdes de plástico. Algum sempre se perdia.

As vezes sou assaltado pela certeza de que tudo isso nunca aconteceu, como em um sonho, ou está para acontecer, como em uma profecia, ou está a se repetir feito um tipo de mantra. Em vez de incômoda, a sensação é confortadora. Gosto de pensar que em algum lugar eu ainda tento desenhar um P, uma camisa se contorce no asfalto como um animal moribundo e  um soldado de plástico jaz entre o cimento e os tijolos da parede de alguém.

Pedro Fernandes é o convidado especial desta sexta. Tatiana Mendonça retorna na próxima semana

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