É difícil resistir ao iPhone: ele é caro, bonito, e todo mundo tem, ou terá. Mas se é ruim não ter tido dinheiro ainda para comprar um, é bom ter tempo para pensar a respeito.

Ajuda muito a reportagem de Charles Duhigg e David Barboza, In China, Human Costs Are Built Into an iPad, publicada no “New York Times” semana passada.

Trata-se de investigação sobre as condições de trabalho encontradas em fábricas chinesas que fornecem equipamento para a Apple. Um dado: no último ano, duas explosões em galpões de fornecedores na China mataram 77 operários. Eles faziam iPads e iPhones.

A Apple tem um código de conduta para fornecedores. Ela também os fiscaliza anualmente. Ter encontrado violações a suas normas seguidas vezes, porém, poucas vezes teve o efeito previsto no código, que é o fim do contrato.

Um executivo da Apple explica que é difícil (caro) trocar de fornecedor. São poucos os que conseguem fabricar a quantidade de coisas que a Apple precisa no tempo em que ela estabelece. Ou: no tempo que nós, consumidores, queremos.

Um desses fornecedores, a FoxxConn, emprega 1,2 milhão de pessoas. Entre 2008 e 2010, houve 18 casos de operários que caíram ou se jogaram de prédios da empresa. As circunstâncias indicam suicídio. Um ano antes, falharam as negociações entre a FoxxConn e o BSR, grupo que trabalha pela segurança do trabalho no mundo, para que a empresa colocasse em prática um programa experimental de melhoria da qualidade do trabalho. Um dos pontos consistia em apoio psicológico aos funcionários. Depois das 18 quedas, a FoxxConn resolveu disponibilizar a ajuda.

A responsabilidade da Apple não vem apenas de sua inoperância diante dos abusos. Vem também do nível  de ganância com que pratica o capitalismo. Pressionar fornecedores por preços baixos reduz o lucro destes, o que estimula abusos. Na Wintek, outro fornecedor, 22 foram intoxicados com n-hexane, em 2008. O produto, que causa paralisia e danos nervosos, era usado para limpar telas de iPhone porque evapora três vezes mais rápido do que o álcool comum.

Nicholas Ashford, ex-diretor de um grupo que assessora o ministério do trabalho norte-americano, resume: “O que é moralmente repugnante em um pais é aceito como parte dos negócios em outros. E as empresas tiram vantagem disso.”
Cabe perguntar: é possível ser um gigante da eletrônica hoje sem recorrer à exploração? Sim. Fornecedores da HP, por exemplo, lucram mais, se a empresa comprova que há investimentos da parte deles em qualidade do trabalho.

Diante da denúncia formal, feita por uma ONG chinesa, da falta de ventilação adequada em um galpão onde operavam de máquinas de polir alumínio, na cidade de Chengdu, a empresa silenciou. Duas semanas depois, o iPad entrou em promoção. Sua carcaça é em parte de alumínio e a demanda em Chengdu cresceu. Até o ponto de, com o calor, a poeira metálica entrar em combustão e causar uma explosão em cadeia que queimou gravemente 18 operários e matou outros quatro.

Um executivo da Apple assume: “Hoje em dia os consumidores estão mais preocupados com o novo iPhone do que com as condições de trabalho na China.” Tudo ficará como está, até que paremos de fingir que nossos desejos materiais são necessidades reais.

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Após a explosão, em maio, a Apple anunciou que um time de experts em segurança do trabalho teria sido acionado para prevenir problemas do tipo. Em dezembro, em Xangai, uma nova explosão feriu 59 operários, 23 gravemente. O que eles faziam? Poliam alumínio.

Diego Damasceno escreve às terças

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