Dentro de umas décadas, quando numa conversa de bar em algum lugar do mundo a história do naufrágio do Costa Concordia for recordada, é muito provável que a covardia do capitão Schettino seja o primeiro a ser comentado, seguido pela enorme bronca que lhe deram (o célebre “Vada a bordo, cazzo!”). Serão lembrados também os mortos, os desaparecidos e os sobreviventes, mas a tragédia pessoal de Massimo Donghi não fará parte dessa memória coletiva.

Se eu estiver nessa mesa de bar, farei questão de relembrar o caso (e dar-lhe a devida importância) desse padre italiano da pequena Besana Brianza, cidadezinha ao norte de Monza. Para mim, o naufrágio pessoal do religioso é a síntese do espetáculo diário que é a vida. Por trás dos heróis e dos vilões que protagonizam os acontecimentos grandiosos, há dezenas de histórias trágicas, heroicas e cômicas que acabam eclipsadas. Para nossa sorte, às vezes algumas delas vencem a escuridão.

Pois eis que Donghi, dias antes do cruzeiro tombar, despediu-se de seus fiéis e anunciou emocionado que deixaria a cidade por umas semanas para meditar em um retiro espiritual. Refletiria sobre esses duros tempos, rezaria por todos nós e voltaria ainda mais comprometido com seu labor paroquial. O padre teria desfrutado de 15 dias de luxo com direito a festas, banheiras de hidromassagem e cassino a bordo do Concordia não fosse a manobra desastrosa do capitão Schettino, que afundou o barco e a reputação do pároco.

Donghi foi desmascarado porque seu sobrinho, para tranquilizar amigos e parentes, escreveu uma mensagem no Facebook avisando que ele, o avô e o tio haviam sido resgatados por uma lancha e estavam salvos após o naufrágio do navio em que viajavam.

Quem também viveu um calvário pessoal ao sobreviver a uma tragédia foi Johnny Barrios, um dos 33 mineiros soterrados por mais de dois meses numa mina no Chile em 2010. Enterrado vivo, ele não viu como duas mulheres reclamavam na superfície a exclusividade de seu amor frente às câmeras de TV.

No final, quem o recebeu foi a amante, Susana Valenzuela, e não a esposa, Marta Salinas, com quem estava casado havia 28 anos. Em meio às centenas de pessoas que esperavam pelo resgata dos heroicos mineiros, havia outras amantes, filhos ilegítimos que esperavam para conhecer seus pais e familiares dispostos a perdoar e pedir perdão depois de anos de separação. Histórias espetaculares, mas que acabaram soterradas.

Ricardo Viel escreve às segundas

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