Eu nunca que m’esqueci dela – e até hoje me arrupeia nos braço, os olho entope d’água de lembrar da história.

Pois a quenga mais cheirosa da cidade chamava Maria Dusá: morava bem ali, naquela curva. Ali, onde a cidade nem mais não chega. Onde tá aquelas parede de pedra velha, aqueles caco caído de telha, aquelas ruína vermelha: ali tinha a casa dela.

Pr’aqueles lado era tudo casa naquele tempo. Pois s’inda dava carbonato, e mais diamante, qu’inda dava os tanto? Uma base de dez litro cada duas semana, pode perguntar que qualquer um vai dizer ao senhor. Chegou a dar 9 mil morador na cidade.

Coronel era o que mais dava também – morria um, entrava outro. Quieta com patente, moço: a pois se eles era os dono da terra? Coronel de empreitada.

O mais brabo (o último) que teve chamava Messias. Ficava sentado bem aqui, recostado todo curvo das costa aí mesmo onde tá esse toco de pé de árvore. Passava o dia todim sentado, mascando mato, rolando fumo. Fazendo nada. E quem passava por ele inda era obrigado a curvar pra pedir bença. Quem não curvasse, ripa.

Só no garimpo dele empregava pra mais de 250. Ia até lá em baixo o garimpo, era essa terra toda que o senhor tá vendo aí até bater naquelas folhagem mais alta lá detrás. Pois ter cabado o tempo da escravidão não deu prejuízo a ele nenhum: pagava diária de fome, serviço custava um nada. Exemplo: se hoje um salário custa 500 real, ele dava 250. Chegava nem pra pagar a bateia e o marrão, quanto mais levanca, carumbé, enxada, candeia. Garimpeiro ficava tudo devendo; os que tentava enrustir pedra boa, os capanga dele caía em cima de chulapada.

E dizia inda, aquele preverso, que era dono de Maria Dusá. Que quando ele tava na cidade, a quenga era dele exclusivo. Fazia ela botar nós pra correr: eu, João Gringo, Castilho, Bastião Preto, Euclides e mais os menino dela tudo. Botava nós pra correr pra não vir os capanga do coronel bater de vara na gente, mas era porque ele obrigava, nós sabia: a pois se olhava pra nós com aquele olhar quente de ternura? Pra mim principalmente; de amor.

Antão teve um dia que eu enfureci. Dei de passar por coronel Messias sem curvar nem pedir bença, voado no rumo da casa de Maria Dusá. Aí os capanga dele me garraram pela gola na outra esquina, já dobrando o beco da boate, onde tinha a farmácia. Me truxeram de vorta pendurado pelo colarim, chei de garrucha nas mão. Me engarguelaram primeiro, depois abriram minha boca, e o coronel enfiou uma colher cheinha de pimenta em minha goela.

Menino: a pois eu fui na lua e vortei – pense. Lembro só das lágrima. Umas da pimenta, o resto de ódio mesmo daquele desgramado.

Não deu cinco dia, coronel Messias amanheceu caído no chão na porta de casa, morto feito esse montão de pedra branca desbarrancada que o senhor tá vendo aí. Antes de raiar o sol, eu já tinha picado a mula pra São Paulo faz é tempo, rastado por minha tia – eu por mim tinha ficado. Deu mais uns mês e a cidade vaziou de vez: de 9 mil sobrou só 280; uns saíram matado, outros fugido. Aí deu tanta polícia que acharam bem de fechar o garimpo.

Eu era menino – ia completar 13 anos – e nunca mais que vortei pr’aqui; nem nunca soube mais notícia de Maria Dusá: morava bem ali, naquela curva.

Toda cidade que teve coronel é assim, preversa.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

Anúncios