Comparo obssessivamente  fotos de infância com caras no espelho e vejo que ainda estou lá.

Encontrei a minha expressão cotidiana dos olhinhos aflitos, como um amigo se refere a ela, em uma foto daquelas tiradas em estúdio de antigamente, em que eu usava uma tiara que me incomodava e um vestido que provavelmente apertava minha barriga.

Levei minha curiosidade para as fotos de infância de amigos, uma coleção que tinha no segundo grau, quando, por algum motivo, começamos a trocar fotografias de família entre nós. Descobri ainda que meu namorado tinha a mesma expressão de desconforto nas fotos aos dois anos de idade.

Na foto abaixo, o rapazinho que aparece com três anos de idade na Escola Ativa Montessoreana também sou eu. Tem os lábios bem fechados quase em um bico, que pode ser de concentração ou de desagravo.

O mapa das nossas expressões geralmente é feito pelo outro que nos observa com atenção. De posse das definições das nossas caras e bocas, tentamos emulá-las ou modificá-las com frequência em favor de fotos novas nas redes sociais.

Como num trabalho seriado de Andy Warhol, fazemos variações de nossas expressões típicas que ficam bem na foto, mas há sempre uma atmosfera de não autenticidade que perpassa tudo aquilo. Uma encenação de nós mesmos que acontece até, e principalmente, no espelho.

Mas há aquelas expressões que só aparecem nas fotos tiradas sem preparo e nas fotos de infância em que, mesmo vestidos de marinheiro, não sabíamos fazer cara de posteridade. Elas dizem algo sobre nós que, no dia-a-dia, não conseguimos ver. E algo que muitas vezes não reconhecemos.

Escrevi sobre esse tema textos atrás aqui n’ O Purgatório, mas permaneço sem respostas ou novos insights sobre ele. Tenho uma perplexidade, não uma teoria.

Não consigo encontrar a ligação entre o que pensava quando criança e o que sou hoje. Mas as fotos que me dizem que, de algum modo, eu devia estar sentindo a mesma coisa.

Eu não sou daqui

Camilla Costa escreve às quintas-feiras.

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