O cenário é uma das tantas pracinhas com cadeiras e mesas de Córdoba, Sul da Espanha. Havíamos acabado de almoçar e tomávamos um café.

“Se eu tivesse dinheiro…”, disse meu amigo, mas não completou a frase. Foi interrompido por um senhor bem vestido e com um sorriso amigável no rosto que acabava de sair do restaurante.

“É o que todos dizemos, não é verdade?”.

Em seguida pediu perdão pela intromissão. “Desculpa me meter, mas não resisti. Passamos a vida fazendo essa afirmação, pensando no que faríamos se fossemos ricos, mas a verdade é que aqui se vive muito bem.”

Devia ter quase setenta anos e esbanjava vitalidade. Contou que viajava com a mulher e mais dois casais de amigos. Eram de Barcelona e há anos passavam Réveillon juntos, em algum lugar da Europa. “No ano passado fomos pra Itália, mas fazia muito frio. Desta vez escolhemos o Sul, aqui da para aproveitar mais, tem pelo menos esse solzinho”, explicou.

“Daqui a pouca minha mulher sai do restaurante e vai reclamar que eu já estou conversando com desconhecidos”, sorriu o senhor; e voltou ao assunto de ficar rico.

“Não ganhamos a loteria de Natal, mas ainda há a dos Reis Magos, quem sabe… Fazemos assim, eu fico com o primeiro prêmio e vocês com o segundo, pode ser?”, brincou de novo.

Então a senhora e os amigos apareceram do outro lado da rua. Ela o olhou com cara de ternura, antes de dizer o que todos esperávamos: “Já está ai puxando papo, né. Vamos!”.

Ele se despediu, nos desejou um bom ano e caminhou até a mulher para tomá-la pelo braço.

Foi embora e nos deixou com uma inveja boa. Tomara a vida nos trate bem, nos permita chegar à velhice com saúde, com uma mulher agradável, elegante e que nos entenda, um par de amigos que nos faça companhia e um pouco de dinheiro no bolso para viajar de vez em quando.

E que os milhões da loteria nunca cheguem para não estragar o que não precisa ser melhorado.

Ricardo Viel escreve às segundas

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