Não é nada que abale minha imensa admiração por ele, mas tenho para mim que Chico Buarque demonstra inteiro desconhecimento acerca das filigranas do uso do transporte público de massa quando afirma que “o malandro pra valer, não espalha, mora lá longe e chacoalha no trem da central”. Porque ora, o trem pode até ser mais apertado, mas quem chacoalha mesmo somos nós, usuários dos ônibus, essas naus a singrar velozes as ondas de nosso asfalto urbano, entregues quase sempre à timonagem mal-humorada de incautos motoristas – arremate dessa experiência náutica.

Mas, enfim, o caso mesmo é que, já tendo zarpado do ônibus numa dessas manhãs, andava em direção a meu local de trabalho, meditoso que certa morena mais bela e mais doce desse mundo calhou agora de querer ocupar meu coração. E que, sendo-lhe doce e mansamente consentida a entrada, nada mais justo é que tenha uma cópia da chave do dito cujo.

Razão que me fez parar na bodega de seu Arlindo, chaveiro, ali na rua Alvorada. Esperei na saleta vazia, solitária e branca, mirando a única parede ocupada, colmada de chaves todas virgens de segredo, até que o homem retornasse do banheiro. Chegou estendendo-me a mão gorducha e bonachona, e então mostrei-lhe a chave e inquiri-lhe o preço da cópia. Essa era mais cara, ele disse, porque cópia dela só mesmo n’outra chave original. E perguntou piadoso quantas eu iria levar, e que por favor fossem muitas, porque a vida está dura e hoje acordara para ganhar dinheiro e não-sei-mais-o-quê. E como me faltasse o tino do regateio, aceitei por desconto a graça do homem, e paguei o preço cheio, sem chorar real. Ademais, não era qualquer chave, pensei comigo.

Entrou em seguida um conhecido de seu Arlindo. Deixou na bodega um par de anedotas sem nenhuma graça e despediu-se com um bom dia. Ao que o chaveiro retribuiu, avisando que, no dia seguinte, deus querendo, se tornaria avô. E tendo o outro ido embora, contou-me da esperança severina de alegria que cercava a chegada da primeira neta, a filha de uma de suas três filhas, todas três já grandes.

Porque de uns três anos para cá, a maré da vida virara. Perdera quatro pessoas muito próximas, uma atrás da outra, nenhuma de acidente, tudo de doença mesmo. Um do intestino, outro de cachaça, outro do coração. E nessa leva, por último, minha mulher foi junto. De pedra nos rins. Quando foram diagnosticar, já era tarde, não dava mais para salvar. Foi difícil para mim, virar pai-e-mãe, e para as meninas também, mesmo todas três já sendo grandes. Agora eu vejo televisão, saio pouco, vou na casa de minhas filhas, e pronto.

A vida, morta sua mulher, se lhe resumira só ao trabalho. E a uma ou outra namorada que, diz, só querem saber é de dinheiro.

E então seu Arlindo já não era mais seu Arlindo, o chaveiro, mas o de minha imaginação. Pensei em de quantos passeios e filmes e discos partilhados com a mulher, nos anos, a cidade e os empenhos do dia-a-dia lhe haviam privado. E nos netos que sonhara receber não sozinho, mas em companhia dela. E no que de urbanamente maldito houvesse petrificado os rins de sua mulher. E por fim no que fizera de si mesmo nesse tempo todo, dado o tanto que se lhe tornara difícil, agora, continuar simplesmente sustentando a própria cara no espelho, e o sentido da existência, e talvez a engomação das camisas e das cuecas, sem ela.

E, permitindo-me ir além, pensei em madame Francinet, personagem de Julio Cortázar, mulher do falecido Georges, que, entre uma e outra marola, no ônibus, pude ler que diz assim: “É sempre agradável ter alguém que cuide da gente, principalmente quando não se é tão jovem. Na velhice o único remédio é pensar na gente mesmo, porque os outros… Aqui estou, por exemplo. Quando meu Georges morreu…”

E depois pensei no Velho Braga, que em seu “Sonho de simplicidade” nos sopra que “então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho vão de simplicidade. Será um sonho vão?” E segue, mesmo urbano e fumante, defendendo que a vida fosse mais simples, só de casa, comida e uma simples mulher, e que bastaria poder andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio.

E pensei pesaroso que Seu Arlindo, o de minha imaginação, já está muito velho para refazer tudo, tudo um pouco diferente.

E então pensei que sou muito moço para pensar nessas coisas todas. Que apesar de toda dor, de todo medo, de todo chacoalhar, meu coração está alegre e uma vez mais cheio de sonhos bonitos. E que, nas mãos, o que tenho agora é um par de chaves.

Aí desejei, sincero, felicidades a seu Arlindo, o chaveiro. E fui-me embora da bodega.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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