O Purgatório tem o prazer de apresentar hoje um novo autor, este excelente Diego Damasceno. Ele assume as terças-feiras substituindo o grande Pablo Solano, que precisou nos deixar por razões de força maior. Obrigado, Pablo, e seja bem-vindo, Diego!

O escritor Ruy Castro não deu seu telefone para a ONG Ação Educativa, mas mesmo assim uma funcionária de lá ligou para ele. Queria enviar para o autor de O Anjo Pornográfico o “trecho completo” do livro distribuído para escolas que causou polêmica por ensinar que não há diferença entre “os livro”  e “os livros”. A ONG é a responsável pelo livro, batizado Por uma vida melhor.

Além da biografia de Nelson Rodrigues, Ruy Castro escreveu sobre a vida de Garrincha, publicou dois livros sobre a Bossa Nova, organizou as críticas de cinema de Moniz Vianna e José Lino Grünewald e tem livros sobre cinema, musica, futebol e literatura. Colunista da Folha de S. Paulo, havia criticado o livro da Ação Educativa, aprovado e distribuído pelo Ministério da Educação.

Em que pensou a ONG? Em sua imagem. Ligar para o maior jornalista cultural do Pais para apresentar para ele suas justificativas, na esperança de que ele as propagasse num texto posterior, bastaria.

Joseph Blatter também achou que bastava bater na mesa e repetir, tom de voz mais alto do que reza a etiqueta das conferências de imprensa, que “a Fifa não é corrupta”. Na real, não tomou e não tomará medida nenhuma contra os escandalosíssimos casos de corrupção que pipocaram nas semanas passadas. Tática semelhante, que varia entre a indiferença e a negação via notas oficiais, deve ser adotada em resposta à acusação de governos estaduais de que a entidade faz lobby pesado para que seus patrocinadores sejam contratados para as obras e a realização da Copa.

Antônio Palocci seguiu o mesmo script : falou pouco, explicou nada. Pior: saiu do governo e todo o governo, por causa da sua saída, quer fazer acreditar que o problema sumiu. A saída de Palocci é varrida para baixo do carpete de seus negócios nunca explicados. Seu sumiço oficial equivale a sua absolvição, nos diz o Governo, o Congresso e a Procuradoria-Geral da República.

A imprensa escancarou o enriquecimento de Palocci, o Ministério Publico age e pressiona por lisura na Copa, o MEC cambaleou com os ataques vindos de todos os lados contra seu livro dos sete erros. Por suas estrutura, história, função, alcance e interesses, essas instituições não são a solução para esses problemas. Poderiam fazer mais, sim, mas por ora é o que temos.

Devemos nos conformar, então, com a limitação da fiscalização diante da corrupção ilimitada? Pelo contrario. Essa é a nossa deixa. Onde as instituições de controle param, é onde eu, você e seu amigo entramos. Nós que não ganhamos nada toda vez que Blatter, Ricardo Teixeira, Pallocci, Lula, Collor e outros ganham.  De outro modo, seguirá o jogo de cena.

Diego Damasceno escreve às terças

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