Como é que Salvador, sendo cidade tão antiga, pode ter mais problemas que cidades mais novas, como Brasília?


Essa pergunta, que eu me fiz por muito tempo, revela a visão equivocada que eu tinha: que cidades seriam comparáveis a pessoas, no sentido de que, quanto mais velhas ficam, mais experiências adquirem, menos erros tendem a cometer.

Graças a Milton Santos, pude descobrir o equívoco. Em sua obra, encontrei o conceito de rugosidades, camadas de diversos períodos do passado que se manifestam, sobrepostas, no espaço presente e cuja inter-relação, com efeito, nem sempre é isenta de tensões. Se é mais fácil fazer brotar uma cidade moderna e próspera em MaPiToBa, nossa famosa última fronteira, do que modernizar Salvador, isso tem a ver com a obviedade de ser mais fácil escrever em uma folha em branco do que em folha que apresente tanto texto, com tantas emendas já feitas.

A teoria do geógrafo baiano me levou a notar, consequentemente, que não só minha percepção do espaço era ingênua, mas também minha visão do amadurecimento o era. Decerto, a experiência de vida tem suas vantagens; essas, porém, são limitadas pelas rugosidades que carregamos conosco, junto com as rugas.

Com isso o caro leitor e a bonita leitora podem fazer diversas associações. Podem apontar para importância da educação infantil; podem sublinhar a necessidade de pensar sempre out of the box, como dizem os anglófonos; podem até se valer das ideias acima para criar um abaixo-assinado que vise à destruição de uma área problemática de sua cidade.

De minha parte, nesse início de semana puxado, só quero mesmo uma justificativa para me aventurar em planos, projetos e atividades nos quais seja mais importante trabalhar minha ignorância do que continuar girando a roleta viciada que só para no que (julgo que) sei.

Acho que vou acabar essa crônica por aqui e vou compor uma música ao piano.

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Breno Fernandes não toca nenhum instrumento musical, não tem nenhuma noção de escala ou de tonalidade e não sabe ler partitura. Escreve às terças.

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