Aí você vai parar em Caxias do Sul, escuta blues e come agnolini, você visita um bazar hipster, senta em um sofá roxo de veludo, pensando em comprar uma mochila feita a partir de borracha de pneu reciclado, lê um exemplar de O Falcão Maltês, de Dashiell Hammett, edição de 1963 da editora Globo na coleção Catavento, que você comprou por R$ 1 e cuja capa lhe tranquiliza ao alertar se tratar de Texto Integral – Tradução Fiel, você passeia pela praça transformada em Feira do Livro e assiste a uma amiga autografar o seu Recortes para Álbum de Fotografia Sem Gente (um ótimo livro, aliás), você caminha até a rodoviária sob um vento desconcertante, acompanhado por um caxiense para quem Proust é um segundo pai, e somente no ônibus, ao lado de uma idosa gordinha simpática carregada de lenços de papel para assoar o nariz teimando em escorrer, você se lembra de que ainda não escreveu nenhuma linha sequer para a sua crônica quinzenal no Purgatório.

Mas e aí?

Aí você sabe qual será o tema, que é a diferença regional de julgamentos estéticos tendo como referência nominal o verbo fuder, considerando que na Bahia se diz difudê enquanto no Rio Grande do Sul se diz afudê e em São Paulo é tudo fudido, o primeiro lhe revela o grau de gula sexual da cultura baiana, onde o objeto se torna, em essência e a priori, um objeto para se experimentar fudendo, e o segundo é a concepção de gozo a posteriori dos gaúchos, o “a” que funciona como a definição de futuro sexual sempre à espera, tendo o efeito como finalidade, sendo o terceiro puro espírito de catástrofe dos paulistas, mas a questão lhe parece ambígua desde o início porque, para começo de conversa, mal se sabe, ou se reconhece, a forma correta do verbo base, se fuder com u ou foder com o, do mesmo modo se buceta ou boceta, como questiona Tony Bellotto em No Buraco, e você hesita, e eis que você, extenuado pela viagem, já em casa, decide abandonar o dia, irá tomar um banho, isso sim, irá comer, escutar uma música, você abre o tocador do computador portátil, escolhe uma música do Camisa de Vênus, e não pode ser outra música a não ser essa do Camisa de Vênus por ter sido ela justamente a lhe dar a ideia primeira do texto, e lá vai Marcelo Nova cantar que então bota pra fudê, bota pra fudê, bota pra fudê, se você não ganhou nada não tem nada pra perder, quando você vê já é tarde, Silvia virou uma piranha, Bete morreu e sua única certeza na vida é não ter matado Joana D’Arc, você deita na cama e dorme. Você sonha que vai parar em Caxias do Sul, para escutar blues, comendo agnolini, logo antes de frequentar um bazar hipster, sentado em um sofá roxo de veludo, com um Dashiell Hammett de R$1 no bolso. E então, sem distinguir mais entre sonho e realidade, você escreve o seu texto para o Purgatório, feliz da vida por continuar escapando mais um dia da decisão inevitável de ir ou para o céu ou para o inferno.

Davi Boaventura revela os bastidores do Purgatório, quinzenalmente, às segundas.

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