Encontramos a nossa entrevistada em um porão no centro da cidade, onde ela atualmente divide moradia com sua família extensa, de muitos filhos e nenhum pai. Está com a visão prejudicada, perdeu a vaidade, o orgulho, mal parece a estrela que despontou como uma garota-prodígio na década de 80 e se transformou na principal vedete do cinema hollywoodiano dos anos seguintes: quando se deu essa nossa conversa, não vestia nada além de uma mortalha preta e um cigarro preso em uma piteira. Combalida pelo ostracismo, ela já não espera ter qualquer reconhecimento dos estúdios que, nas suas palavras, “usaram e abusaram de todas as formas” para abandoná-la em seguida. Com o público, no entanto, ela ainda sonha.

P – A senhora se sente injustiçada?
R – Mas é claro, meu filho, como é que não eu me sentiria? Eu era uma diva e fui abandonada! Uma covardia. Abandonada, apedrejada em praça pública! Esses estúdios picaretas, esses produtores que hoje estão cheios de dinheiro por minha causa, eles me usaram e me abusaram de todas as formas, eu nunca tive férias, você sabia disso?, eu recebia somente o pagamento exigido pelo sindicato, isso eu sei que você também não sabe, e o que é que eles fizeram, esses produtores hiper-mega-superpoderosos? Assim que arranjaram uma menininha nova, com uma pelezinha brilhante, eles me mandaram embora. E me prometeram os mundos, esses filhos da puta! Que eu não ficaria desamparada, que eles iriam me proteger. Nem meu psicólogo pagaram, uns monstros, é o que eles são! Em menos de um ano, eu já estava morando nesse pardieiro.

P – Mas a senhora, quando surgiu no cenário de Hollywood, também foi acusada de canibalizar a concorrência.
R – Lógico que não! Lógico que não! Meu filho, você é muito novo ainda, ainda é muito ingênuo, acaba acreditando nessas historinhas que os produtores inventam. Abra os olhos, meu filho. É tudo o que eu posso te dizer.

P – E o que foi então que aconteceu? A sua relação com a Beta, por exemplo, nunca foi bem explicada e, infelizmente, ela já não está aqui para contar a sua versão.
R – Olha, a Beta era uma prisioneira, essa é a verdade. É triste, mas é a verdade. Bem, eu era livre, podia escolher com quem trabalhar, eles me pagavam pouco, mas não me faltava emprego, sem falar que os ambientes de trabalho eram cada vez mais modernos, mais limpos, climatizados, eu praticamente não me cansava, mesmo com horas e horas de gravação. Com a Beta foi o contrário, ela só podia obedecer, fazer o que eles mandavam. Ela assinou um contrato de exclusividade e os produtores são cruéis com quem assina um contrato desses, eles transformam em um escravo. E matam o escravo, ainda por cima, quando não serve mais. Mataram a Beta de fome.

P – Essa é uma acusação grave, a senhora não tem medo de retaliação, de processo?
R – Medo de quê, meu filho? Medo de quê? Você vê onde eu estou morando? Você vê a sujeira que está aqui? Esses produtores me ignoram, nem sabem onde é que eu estou, para eles tanto faz se eu morrer. Eles deveriam vir aqui é me agradecer, me pedir perdão. Mas eu já perdi a esperança. Antes eu acreditava, agora já perdi a esperança. Não se pode esperar compaixão desse povo endinheirado. O cinema é uma luta de classes, meu filho, outro dia eu até assisti um documentário falando exatamente sobre isso, o cinema é uma luta de classes e o proletariado sempre perde. Mas, o público, quem sabe? Quem sabe não aparece alguém aqui para me resgatar? Meu primo Vinny está por aí, fazendo sucesso de novo, cantando. Por que eu também não poderia, né?

P – Das locadoras, a senhora sente falta?
R – Ah, meu filho, as locadoras eram uma promiscuidade, ninguém era de ninguém. Minha primeira vez, aliás, foi em uma locadora aqui pertinho, hoje lá é uma igreja evangélica. Mas até que não sinto tanta falta assim, a gente passava muuuuuito tempo esperando e, quando aparecia um cliente, ele sempre levava outra, era meio que um orfanato, e eu sempre achei os orfanatos muito tristes.

P – E do que é que a senhora sente mais falta?
R – Eu sinto falta de ser rebobinada. É… Era o que eu mais gostava, ser rebobinada, sentia cócegas. E me fazia sentir tão bem cuidada, tão amada. Acho que é isso, eu sinto falta de me sentir amada. Mas quem é que vai amar uma velha como eu quando se tem um DVD ou um Blu-Ray novinho para se assistir em casa?

Davi Boaventura vive no passado, quinzenalmente, às segundas-feiras.

Anúncios