… E acabou o verão. Ou deveria, acaso tivéssemos estações bem definidas nesta província que só conhece o verão insuportável e o verão ameno, que é mais ou menos o que teremos a partir de hoje. Menos no sertão, onde o sol escaldante transforma esta estação na mais longa dos últimos 70 anos, segundo meu tio Hugo [desconheço melhor fonte] – nove décadas de roçado.

Desde o início do agreste baiano até os confins do sertão piauiense o sol deixou de ser dádiva para se tornar um carrasco inclemente do trabalhador nordestino. Um flagelo intermitente, desde cada alvorecer da estrela amarela até o poente chamejante, rubro, que antecede a noite escura pontilhada de estrelas. Nenhuma cadente que atenda um pedido seco e desesperado por socorro.

O dia de São José era a última esperança para um feriado junino sortido. Lembrei-me da infância iraraense, quando na véspera do dia 19 de março, via tios e primos prepararem as sementes de milho e amendoim; cavarem as covas, afofando a terra dura em preparação ao plantio; amolarem enxadas das mais diferentes libras, posicionarem os cabos na angulação entre 25 e 30º; acunharem com um calço fazendo um rasgo no meio da madeira; prepararem a galinha caipira com farinha para ganhar tempo e aproveitar o dia – a chuva era a convidada principal do ritual.

As mãos ásperas e calejadas sempre foram um motivo de orgulho. Significava não apenas a honestidade do caráter, mas também a dádiva de possuir um trabalho, um labor. Eu, que ajudava apenas o suficiente para que não fosse acometido patologicamente pela acídia, invejava aqueles calombos duros, resultados de repetidos movimentos de fricção e pressão sobre o cabo da enxada.

A chuva não veio. Mais um dia de tristeza dolente. É necessário guardar ânimo e forças e aguardar o desígnio dos céus. A tarde cai, noite levanta a magia, quem sabe a gente vai se ver outro dia, quem sabe o sonho vai ficar na conversa. Quem sabe até a vida pague essa promessa. Muita coisa a gente faz , seguindo o caminho que o mundo traçou, seguindo a cartilha que alguém ensinou, seguindo a receita da vida normal.

A desdita do povo nordestino não mobiliza, nem comove mais. Há um lúgubre desprezo sobre o que ocorre por aquelas plagas. É um sofrimento invisível, ignorado, sentido apenas no preço da farinha copioba que vai à mesa farta de quem vê o mundo pela TV. Nessas horas, eu quase que não consigo viver na cidade, sem ficar contrariado. Afinal, sou como rês desgarrada, nessa multidão boiada caminhando a esmo.

É preciso secar o suor da testa e seguir. Nem tudo são más notícias nesse mundo cinzento. “Duas folhas na sandália, o outono também quer andar”.

Bem-vindo outono austral. Traga chuva, boas novas e poesia. Na ordem que lhe convir.

Alex Rolim escreve às quintas e tiraria  nota máxima na redação do Enem

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