Morre controverso governante de país da América do Sul. Ditador! Vociferam opositores. Mito, herói! Aclamam simpatizantes do regime implantado naquele lugar. Na mídia, bombardeio de informações filtradas, editadas ao prazer da linha editorial do veículo.  Nas ruas, bares e redes sociais, discussões efusivas e acaloradas. Todos têm uma opinião muito relevante a respeito da transição política de uma terra que poucos conhecem.

Encontrado morto em seu apartamento vocalista de banda de rock de relativo sucesso nos anos 90. Poeta! Voz de uma geração! Poucos se lembram da obscuridade e repetição de fórmulas a que esteve submetido na última década. Poucos questionam a linguagem e alegorias pobres de suas canções – apesar da força simbólica e profusão de tonicidade rítmica de sua música – “está morto. Podemos elogiá-lo à vontade” como bem sentenciou o velho bruxo Machado de Assis.

Julgamento de crime hediondo com envolvimento de ex-desportista de sucesso. Musa! Estampa o jornal com a figura da ex-mulher do réu, também acusada de cumplicidade no crime. Como era musa a esposa do empresário envolvido em escândalos de corrupção – também suspeita de acobertamento de provas do esquema.

As palavras têm força. Elas significam o que devem significar. Não existem sinônimos, solfeja Rubem Fonseca na minha consciência. “Cada palavra tem um significado diferente, esse lance de sinônimo é conversa pra boi dormir”- arremata antes de gargalhar.

Para ser musa não basta atender a padrões estéticos. Poeta é quem faz poesia [que é muito mais complicado do que pode parecer].  Ditador, mito e herói são verbetes que não deveriam ser banalizados, pela força que possuem. Vivemos numa era em que a difusão da opinião, da palavra, está ao alcance de todos. O uso deste recurso deveria ser criterioso, exercido com parcimônia.

Muitos falam sobre tudo, mas poucos têm algo realmente interessante a dizer. Por que não se calam?

Vocês me deixam louco.

Alex Rolim escreve às quintas

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