Cientistas americanos inventaram uma máquina capaz de ler estados de ânimo. No sentido físico-químico da coisa, pelo menos. Trata-se de um programa de computador que, aplicado a vídeos, intensifica variações de cor e movimento nos objetos filmados para revelar o que se dá em escala microscópica.

O programa pode evitar tragédias. Aplicado à imagem de um guindaste imóvel, revela micro-oscilações em sua estrutura. Serve também para descobrir se um bebê que dorme em seu berço está, ou não, respirando, por meio da variação de cores do seu rosto.

A tecnologia, que se chama Eurelian Video Magnification, tem um efeito ainda mais amplo: baixa a bola da humanidade. Enquanto vangloriam-se os artistas e os inventores, o mundo natural dá lições de complexidade. Talvez inventar seja um verbo menos importante do que descobrir. Ou talvez este faça mais parte daquele do que a gente esteja acostumado a admitir.

Quanto de descoberta não há nos feitos das maiores mentes criativas que já conhecemos, de Einstein e Tesla a Homero e Proust? Do que falam os maiores personagens da literatura, senão dos seus próprios leitores? Será justo valorizar as sonatas de Bach e as sinfonias de Beethoven sem pensá-las como arranjos de um material cuja presença independe da existência deles próprios? Será completo prezar Cézanne sem ter posto os olhos nos arredores de Aix-en-Provence?

A grande arte consiste na descoberta de leis particulares da matéria do mundo (a luz, o som) e seu manejo. Se há mistério de um lado – como entender que uma pintura nos emocione ou que uma fotografia sobreviva a gerações de espectadores? – , há mais mistério ainda do outro: quem ou o que é o autor desse material que se presta a tantas transformações inquietantes?

Pergunto porque não acredito que o mundo era simples antes da chegada da invenção. Bem ao contrário.

Diego Damasceno escreve às terças

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