PRELEÇÃO

– Quero ver você escalar ONZE, pai!

Esse chiste – com os devidos acentos baianos – era a senha para que Victor Uchôa, Xumi para os chegados, me alertasse sobre a presença maciça de nossos contemporâneos da FACOM – Ufba. Uma galera, como muitas outras, que sempre acreditou ser possível mudar o mundo, até descobrir que é o mundo que muda a gente. Ainda assim uma galera única, capaz de moldar o ambiente à sua volta, quebrar paradigmas [eu estudei comunicação, pô!] e esfacelar conceitos pré-estabelecidos. A geração Xibiatagem, como bem definiu o poeta-produtor-músico-empreendedor Emmanuel Mirdad.

Esse time sofreu um baque terrível. Lucas Sande – membro fundador da TAFT [Torcida Alcoolizada Facom Tricolor] e maior contratação da história do Real Xibiatagem [falso ponta direita com problemas crônicos no joelho direito e ombro esquerdo] desceu para os vestiários mais cedo. O Purgatório ainda está de luto. Sande também era nosso leitor assíduo, daqueles que comentam e elogiam em público.

Não pude ir ao seu funeral. Minha natureza mofina e arredia impediu. Mas reproduzo neste espaço a belissíma elegia declamada por Xumi na cerimônia de despedida.

E desde domingo passado o meu time só joga com dez.

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Fiz essa foto de meu amigo Sande no último Réveillon, numa praia do Sul de Alagoas. Ele adorava brincar com bicho, mas gostava mesmo era de gente. Entre a nossa gente, nunca houve dúvida: ele sempre foi o melhor.

O melhor contador de histórias, a melhor memória, o melhor DJ, as melhores analogias, uma imensurável bondade e uma capacidade quase incompreensível de abrir mão pelo outro. Generoso, ia juntando gente ao redor. E juntava gente, e juntava…

Quando soube que ele havia tirado o time de campo, a nossa gente se reuniu. Teve um que, de uma hora pra outra, veio de Santa Catarina. A outra, do Rio Grande do Sul. Sande encurtava distâncias. De perto, ouvíamos os causos, cada dia com uma versão diferente.

O medo era não ouvir mais aquelas histórias. Engano nosso. A gente lembra de todos os detalhes e reconstitui cena por cena a Saga da Ilha, A Bomba de Coco, A Novata do Brega de Santo Antônio e a odisseia do caçador que, com 11 balas, pegou 12 passarinhos – “Ô, rapaz, é sério. É que tinham dois juntinhos num galho, namorando!”, dizia.

A gente lembra também dos personagens e anedotas. O velociraptor, o abraço do panda, o velho e a velha, o recorde sulamericano. Juntos, a gente reviu as imagens do vídeo de inscrição no Big Brother Brasil 6. Sande, magro e com cabelo, revelando “minúcias” da sua personalidade. “Eu gosto mesmo é de ficar com meus amigos”, está gravado. Então lembramos da apoteótica exibição no auditório da Facom, em 2005. E aí a gente, que passou o dia chorando, riu. Porque era isso que ele mais provocava na gente.

Alguém que certamente entende mais do que eu desse negócio de vida já disse que, cedo ou tarde, tudo passa. Vamos abrir aqui uma exceção: Lucas Sande, com a gente, fica.

Victor Uchôa é jornalista e leitor de Il Purgatório. A “Preleção” quem assina é Alex Rolim, titular das quintas

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