Se acaso sentires teu cérebro assim meio fritado; se acaso notares que, infeliz e fortuitamente, desperdiçaste em tolices outras a cota toda de tutano da semana; pois não te afligirás, amigo escriba, amigo trabalhador, amigo-irmão das galés.

Não te desesperarás: apenas e simplesmente tomarás pela mão tua companheira ou companheiro, e escaparás da casa, fugirás da cidade, embarcarás no encalço da praia mais amena que conheceres (ou de praia desconhecida, a decisão será tua).

Olvidarás o barulho dos carros e bares, te esquivarás de pesares, de pensares, de passares. Abandonarás ao mar azul teu olhar anuviado, beberás uma cerveja, saciarás a sanidade.

E então enxergarás, quiçá por primeira vez, que a linha do horizonte, de ponta a ponta, não é, jamais terá sido, uma reta. Cuidado, pois não poderás mais voltar atrás, dileto amigo: terás descoberto que a linha do horizonte tem ligeira – tem quase imperceptível – curvatura.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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