por Carla Bittencourt

Sempre escutei minha mãe dizer que não queria dar trabalho a ninguém depois de velha e durante muito tempo achei que fosse orgulho.  Qual o problema em inverter o papel de cuidadora com quem começou tudo aquilo?  A princípio, nenhum. Mas aí, me imaginei velhinha, cansada, sem andar. Sem pentear o cabelo, tomar banho sozinha, alguma doença acomodada ao meu corpo depois de tanta vida. Depois de ter dançado, escrito, viajado e cozinhado tanto, eu entendi minha mãe quando comecei a ver a solidão no rosto de todo mundo que me visitava.

Quando algum parente apertava a careta para trocar minha fralda suja ou quando a enfermeira que deveria ajudar a minha família exausta colocava minha cadeira de rodas na frente televisão.  A memória virou um eletrodoméstico em curto circuito e o resto do corpo esqueceu de não doer. Nem é o trabalho que você dá às pessoas, mas a sobrevida que dão a você. Essa coisa misteriosa e inevitável mostrada de forma tão bonita no filme Amor.

Todo aquele incômodo é a projeção de uma realidade. A gente lutando para voltar, ter uma melhora, como se o destino fosse um chão sem rasteira. Também não é a velhice que me faz pensar que nós, humanos que ainda falamos por conta própria, devemos oferecer a dignidade da desistência. Dona Canô e Niemeyer estavam aí até outro dia  enganando o tempo, fazendo quase acreditar que, para eles, as regras são outras.

Não é isso. Conheço senhoras incríveis que melhoram a idade que têm. E é pensando nelas que eu me levanto a favor do poder das outras, que vegetam, de ir embora. Ou ainda das que foram surpreendidas no meio do caminho, sem tantos aniversários assim.

Eu defendo a eutanásia porque acredito que nenhum ser humano deve ser submetido à dor incontrolável, ninguém precisa agonizar para sobreviver. Fora as questões religiosas (que respeito sem concordar), não acho admissível o argumento de que temos que esperar porque a ciência vai evoluir, dê mais esses remédios, interne mais algumas vezes.

No que, além do nosso medo de perder,  estamos pensando quando criminalizamos o direito a essa escolha?

A primeira vez que ouvi a notícia da médica de Curitiba foi de relance. Só pensava em nosso moralismo, nas conversas de mesa de bar, quando todos estivessem explorando seus argumentos acusatórios agravados por “aquela cara de maluca que ela tem”.  Infelizmente, a situação era outra. Desentulhar gente ou considerar-se ponte para o além não tem nada a ver com ser responsável pelo fim de um sofrimento.

Ainda assim, acho que não deveríamos perder a chance de discutir a diferença entre as duas coisas e entender por que ainda não somos capazes de assumir a segunda. Essa médica pode ser o demônio que muita gente precisa para espalhar seu discurso vazio em favor da vida. Mas pode ser também uma ótima oportunidade para a gente investigar a história de nossas leis e tentar reescrêve-las, sem tanta crença no invisível ou regra insustentável.

No meu exercício futurista mais feliz, eu terei amado, inventado uma menina que inventará outras e todas elas vão entender quando a bisa precisar de um remedinho. Para não acordar mais.

Carla Bittencourt é a convidada especial desta sexta

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