Se existe algo nesta desatinada vida que me proporciona desmesurado deleite, é o de ter sido nomeado o emissário para assuntos aleatórios-surreais-quiméricos da província da Bahia deste estimado veículo. Perdi a capacidade de surpreender-me com os eventos desta imensa MACONDO lambuzada de dendê há tempos — sou Mangaberiano de carteirinha — mas admito que, vez ou outra, ainda arregalo os olhos diante de alguns fatos insólitos.

Foi o que ocorreu esta semana, quando um acontecimento pouco convencional catapultou a nossa querida FEIRA CITY aos noticiários do mundo. Teria um disco voador desabado sobre um carro? Criaram uma rede social paralela que conectasse os habitantes daquela fastisiosa urbe? Isso é passado amigos, Feira de Santana sempre esteve na vanguarda do absurdo, honrando as tradições baianas.

Podemos dizer então, que a Princesa do Sertão possui uma predestinação ao disparate. Só isto poderia explicar o fato de uma blogueira cubana — que não deixava a ilha desde 2004 — escolher FEIRA CITY como destino. Ou, quem sabe, a vontade de liberar o consumismo refreado adquirindo alguns gadgtes não-tarifados no FEIRAGUAY.

Deixarei bem claro que não tenho nada contra a segunda maior cidade do nosso estado. Possuo vários parentes por lá, onde até passei um verão da minha adolescência — o pior de todos, admito. Gosto do espetinho de frango com bacon do Bar do Galego em Santa Mônica, possuo um carinho pelo poderoso Tremendão e  Feira exportou para o mundo a nossa talentosa purgadora Camilla Costa.

Causou-me portanto enorme estranheza quando um grupo de “comunistas/socialistas” não satisfeitos em protestar ante a presença de descabelada blogueira com cartazes pouco elogiosos, impediram também a exibição de um documentário que possui a participação da cubana, alegando que Yaoni Sanchez seria uma agente da CIA (?), financiada pelo FMI(?) com o intuito de difamar(?) o regime dos irmãos Castro.

Pra começo de conversa, eu sequer sonhava com a existência de comunistas em Feira [seriam forasteiros?].  A terra de João Durval [e seus filhos] e Colbert Martins não é marcada, historicamente, pelas lutas da esquerda. Ao contrário da briosa Irará, a poucos quilômetros dali – a Moscowzinha do Agreste – nascedouro de comunistas históricos da mais alta estirpe, como Aristeu Nogueira e Fernando Sant’anna, entre outros.

Além disso independente da orientação política de uma pessoa, de seu pai, ou do seu partido, é de boa educação dar oportunidade para que os outros expressem suas opiniões e pontos de vista – especialmente se é sobre o lugar onde essa pessoa vive, e poucos que protestaram conhecem realmente a realidade exposta.

E duvido também que alguém gostaria que qualquer feirense, baiano, brasileiro que visitasse Cuba fosse recebido com tanta animosidade pelo simples fato de expor uma situação que alguns discordam ou que lhes desagrada.

Ademais, o clima instalado na passagem da blogueira foi de tensão comparável à invasão da baía dos Porcos. A Bahia anda tão atrasada que aqui ainda se vive na Guerra Fria. Quando o mundo acabar, só iremos saber em cinco anos, como disse o grande Octávio Mangabeira.

Neste furdúncio todo teve até deputado declarando Yaoni persona-non-grata na Bahia. Quando Carlos Cachoeira passou férias em Maraú, não recordo-me deste tipo de repulsa. Às vezes a esquerda daqui parece com o Zecamunista de João Ubaldo, que certa vez resolveu investir todo o dinheiro ganho no pôquer em uma boate de tolerância, recrutando moças de Itaparica e região. Para ser fiel a ideologia, deu festa de arromba, de graça e com direito ao sorteio de um talão de vale-quenga. O estabelecimento, que viveu dias de glória enquanto o dinheiro durou, era regime de cooperativa socialista e não deu certo, as meninas acabaram voltando todas e, o que é pior, a maior parte neo-liberal.

A Bahia é, de fato e direito, o Brasil levado às últimas consequências [como bem definiu o saudoso mestre Armando Oliveira].

 Alex Rolim escreve às quintas

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