Essa semana dei uma leve diminuída nos doces e nas comidas pouco saudáveis em geral. E voltei a fazer exercícios físicos. Nem a sexta-feira havia chegado e já tinha feito uma aula de Pilates, um “treinamento funcional” (nova forma de chamar algo que não parece musculação, mas é) e uma de videodance (não perguntem). Estranhamente, durante toda a primeira semana da operação emagrecimento pós-farra do boi na Inglaterra eu me lembrei de vó Neném e seu olho de balança.

Vó Neném era famosa na família por, entre outros predicados, saber exatamente quanto cada um de nós tinha engordado ou emagrecido desde a última vez que ela nos viu. Sei que, quando conto, deve parecer uma típica coisa de vó, mas era realmente impressionante.

Aqui devo explicar que, apesar da paranoia normal, peso nunca foi uma preocupação exagerada em casa. Tenho por princípio não me pesar, salvo quando obrigada por médico ou coisa que o valha. Por isso a habilidade de vó Neném era ainda mais útil. Era ela quem nos mantinha gentilmente a par do nosso corpinho de miss — ou de míssil — ocasionais.

E é claro que todas nós preferíamos ouvir que estávamos magras, mas há muito mais nuances nessa afirmação. Vó Neném nunca foi fã de gente muito acima do peso, mas também não muito abaixo. Era de uma época em que ser mais robusta, isso sim, era sinônimo de saúde. Então o “tá mais gordinha” era dito com um sorrisinho de satisfação sutilmente mais aberto do que o “tá magra, chega o rosto tá encovado”. Meu pai, que pegou algo da habilidade dela, se encarregava de julgar de acordo com os padrões atuais.

Mas o olho de balança de vó Neném era mais do que diversão e utilidade pública familiar.  Era o sinal mais evidente de que, caladinha e discreta como ela era, nos observava com a atenção de quem sabe que os detalhes são mais divertidos que os grandes acontecimentos. Volta e meia, e mais frequentemente a cada ano, saíam comentários sobre as escolhas amorosas, as qualidades e defeitos naturais, as raízes das personalidades de todos. Foi por ela que eu soube da semelhança da minha personalidade com a de meu pai na infância (essa época que é o mistério supremo da vida dos pais).

A última vez em que vi vó Neném, deitada na cama da UTI enquanto fazia um tratamento, foi a única em que ela quase que certamente errou o meu peso. Ela parecia bem e contente de nos ver como sempre e, a 3 semanas dos 99 anos, já começava a se preparar para a festa dos 100. Perguntou do meu namorado ( já que nos ver casadas era o objetivo maior, sempre) e quando depois de alguns minutos de conversa não mencionou o assuntou, perguntei eu: “Engordei ou emagreci, vó?”. Acho agora, três meses depois do seu falecimento, que ela me disse o que eu queria ouvir.

Ou talvez, como sempre suspeitei, soubesse mais de mim do que eu.

Vó Neném

Camilla Costa escreve aos sábados.

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