Só consigo pensar que os trios estão onde não estou. Mesmo que no ano passado só tenha virado Carnaval a trabalho — e que agora talvez só ficasse estirada no sofá de casa — dá uma tristeza sem salvação.

Mais isso era apenas um preâmbulo personalista e contraditório. O que vim dizer aqui é que sou a favor de um circuito privado para a festa. Mais ainda? Exatamente. Uma overdose.

A quem não está familiarizado com a ideia, explico melhor: há alguns anos, Durval Lelys e outros mais defendem que seja criado um espaço onde possam “desfilar” só para quem pagou e tem direito. A supremacia da segregação. Justificam que assim acabam-se as cordas, as disputas, os impedimentos dos fios das ruas,  o tamanho limitado do caminhão. Vai ser pura animação alucinante pra paulista ver.

Talvez seja só a loucura da distância e da saudade, mas estou concordando com Durvalino meu rei, por outras razões. A rua precisa, urgentemente, voltar a ser das pessoas todas. Algumas obviedades devem ser repetidas até virarem verdade, é o clichê. O poder público dificilmente vai agir nesse sentido, com ou sem pressão, então temos que confiar no empresariado para conceder a gentileza.

Com eles todos lá no seu axézodromo whatever, o Carnaval vai poder, enfim, se reinventar. Talvez por um par de anos a gente sinta uma falta desgraçada de ver a Timbalada passar. Mas isso vai passar também.

É como disse Paulo Miguez, estudioso dos reinados de momo: “Os artistas têm que entender que foi o Carnaval que os fez grandes. Não foram as grandes estrelas que fizeram do Carnaval uma grande festa”. Temos os meios de sobreviver.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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