* A equipe de O Purgatório está de férias até o dia 13 de janeiro. Até lá, republicaremos diariamente uma seleção dos melhores textos de nossos colunistas ao longo de 2012. A todos, um bom 2013!

Por um lado eu me senti meio ridículo outro dia em que saí para resolver coisas a pé. Olhei em volta e vi tantas bicicletas, alguns patins e – ok, não havia skates, mas eles passam de vez em quando –, que achei um tanto ultrapassado caminhar.

Há um homem em Nova Iorque, engenheiro civil, que decidiu caminhar por cada uma das ruas da cidade. Ele leva um telefone celular que faz fotos geolocalizadas, e tudo que vê de interessante fica marcado na sua lembrança como no seu mapa.

É que eu não sei andar de bicicleta direito, e isso causa um certo complexo de inferioridade. Inveja mesmo não de quem tem uma, mas de quem pode usar uma.

Ainda que ele não possa ou queira ou vá voltar lá, fica a possibilidade de rever o que gostou, e a memoria é um pouco isso, a possibilidade de algo que existiu voltar a existir, acho.

Em Salvador eu tinha muitos motivos para detestar os motoristas dos carros mais legais. Eram os que mais faziam merda – do grau mínimo, merda arrogante, até o máximo, merda que põe sua vida em risco. Mesmo assim eu sempre quis ter um carro legal. Não sei se definitivamente, mas isso mudou em mim desde que estou em Paris. Um carro se reduz, aqui, ao uso: é só algo que leva e traz.

Quando vi a reportagem sobre ele, um pequeno vídeo no site do “New York Times”, pensei: como ele faz nos bairros mais violentos? Depois concluí: ele é novaiorquino e Nova Iorque é sua cidade. Ele não deve ter essa preocupação gringa que eu tive. E mesmo que tenha, em relação ao espaço urbano, andar é consquistar.

Mas depois pensei que há várias diferenças entre ser levado/ser trazido e ir/vir. Mesmo que seja você a conduzir a bicicleta que te conduz, andar na rua é estar no mesmo nível, universo, ambiente das outras pessoas. É olhá-las nos olhos, sentir de perto sua distração. Já o carro nos blinda contra isso. E um motorista distraído é tudo o que não precisamos.

Enfim, andar talvez não seja tão ruim. Nem andar de bicicleta seja tão dificil. Pedalei 20 minutos do cinema até em casa outro dia no meu primeiro deslocamento oficial em anos. O percurso foi interessante, mas gostei mesmo foi de chegar – inteiro.

Diego Damasceno escreve às terças. Texto publicado originalmente em 03/04/2012.

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