* A equipe de O Purgatório está de férias até o dia 13 de janeiro. Até lá, republicaremos diariamente uma seleção dos melhores textos de nossos colunistas ao longo de 2012. A todos, um bom 2013!

Sempre que dava de noite, bem antes de dormir, logo depois de terminar a novela, ela levantava do sofá estendendo o braço por ajuda, desligava a televisão e cobria o aparelho para economizar, não importasse alguém ainda estar olhando. E sem despedida de educação ia andando devagarinho pelo corredor dizendo baixo, só para ouvidos muito treinados ô minhas almas, ô minhas almas, ô minhas almas. E o menino pequeno ainda se assustava: minha bisa cada pessoa não só tem uma alma? Mas ela não respondia, até que cansou de perguntar.

Tudo no rosto da sua bisa era listra e elas se encontravam fazendo desenhos cada dia mais misturados, sumindo os espaços todos que podiam ser lisos, como eram nos outros. E perguntava à mãe por que a bisa é assim, e ela respondia velhice exagerada. E pensava então que uma pessoa não deve viver muito, para não ficar feia de murcha.

A bisa também tinha uma corcunda que a fazia mais miúda que ele, menino pequeno, e às vezes pelo tamanho pensava que podiam correr picula, mas depois se ria, porque ela quase nem sabia mais andar. E perguntava à mãe por que a bisa é assim, querendo se encontrar com a terra, e ela respondia velhice exagerada. E pensava então que uma pessoa não deve viver muito, para não perder a forma do corpo.

O pai sempre brigava com a bisa, porque ela não perguntava antes de mudar o canal do jogo. E o menino achava graça que alguém pudesse descumprir uma ordem do pai, e aí era ele quem ia reclamar com a mãe, igualzinho o menino fazia.

Um dia, antes de sair para brincar, viu que a bisa estava no sofá costurando um pano preto e perguntou o que era. Ela não gostava muito de falar, o mais que respondia era menino, não me gaste!, quase alto, mas dessa vez disse que era a roupa que ia vestir na eternidade.

_O que é eternidade, minha bisa?

_É quando a pessoa entra no caixão.

Paralisou-se o menino. Perguntou se podia ir junto. Ela fez que não. Perguntou se ela já estava perto de morrer. Ela fez que sim. Perguntou se era amanhã. E ela falou braba menino do cão vá-se embora. E ele foi.

Mas não conseguiu jogar direito e os outros ralharam de tanto gol que perdeu. Pensava no vestido da bisa de morta, pensava se as almas já estavam para cá ficar junto dela de tanto que chamava, pensou em como era ser um menino que não tinha bisa, pensou que quando ela morresse ia poder ver o  futebol no sossego com o pai, pensou na mãe se ia ficar triste, pensou em já ficar triste para ir gastando a saudade, pensou que o melhor  mesmo era tudo estar bem separado, quem já está vivo com quem já está vivo, quem já está morto com quem já está morto.  E guardou a ideia para perguntar pra mãe, se tinha algum jeito de ser assim.

Tatiana Mendonça escreve às sextas (texto publicado originalmente em 24/08/2012)

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