Quero entender o afródromo.

Salvador tem três circuitos por onde desfilam blocos e trios durante o carnaval: Campo Grande, Barra e Pelourinho. Por que criar um quarto, no Comércio, só para os blocos afro? Há poucas notícias precisas sobre a proposta, que teria partido de Carlinhos Brown.

Enquanto os jornais se preocupam com coisas menos importantes, fico a imaginar as razões.
O bairro da Liberdade, por onde desfila o Ilê Ayê, não pode ter inspirado a ideia. Há razões históricas e pessoais para isso, e o desfile termina mesmo é no Campo Grande.

Se for questão de espaço, estenda-se a regra que diz que desfilam primeiro os mais velhos, e crie-se um quarto circuito para os blocos recentes. Que os Filhos de Gandhy (63 anos), o Malê Dêbalê e o Olodum (33 anos), o Araketu (32 anos) e o Muzenza (31 anos) fiquem onde estão. Harém-Fissura, Pirraça, Pra Ficar, Largadinho e outros que não completaram ainda nem 10 anos que se mudem (incomodados ou não).

Dinheiro também não pode ser, porque a penúria que os afroblocos têm enfrentado não se resolveria pela mera mudança de circuito.

Pelo contrário: o carnaval baiano é um cenário de concentração, o grosso do investimento e da renda circulando por menos de 10% dos blocos e por isso a migração dos afro para uma vizinhança nova só daria mais um argumento para empresas continuarem a ignorá-los.

Por desfilarem, os blocos de matriz africana nos lembram que o Carnaval é quando as diferenças vão para a rua dançar a mesma música. Extraí-los do desfile tradicional e inventar um espaço novo é fazer a festa se render a uma indústria do mesmo (até porque, blocos não-afro e também tradicionais, como os Corujas e os Internacionais, perderam a individualidade).

Carlinhos Brown é um herói vivo do Carnaval de Salvador. Mas essa proposta (até onde foi possível entendê-la) me parece mais uma retirada estratégica do que um ataque ao inimigo.

Diego Damasceno escreve às terças

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