«Si se pudiera romper y tirar el pasado como el borrador de una carta o de un libro. Pero ahí queda siempre, manchando la copia en limpio, y yo creo que eso es el verdadero futuro.”
(Julio Cortázar, em Cartas de Mamá)

O jornalismo é o melhor ofício do mundo, disse certa vez Gabriel García Márquez. Às vezes quase acredito nessa sentença. Tirando a pressão, as incertezas, a precariedade dos salários e outras tantas dificuldades, resulta que ainda sobra algo (e que não é pouco): o prazer de contar histórias e relacionar-se com pessoas com as quais em outras circunstâncias seria impossível fazê-lo.

Gosto muito de fazer entrevistas, e às vezes sinto que questionando alguém sobre sua vida, tentando entendê-la – a pessoa, digo, mas de certo modo também sua vida – acabo por buscar respostas para a minha própria.

O último trabalho que fiz me custou meses, certa angústia, mas foi extremamente prazeroso e serviu um pouco como uma terapia. Tracei o perfil do toureiro espanhol Juan José Padilla, que há um ano levou uma chifrada que lhe cobrou um olho e quase lhe custou a vida.

Logo que cheguei à Espanha acompanhei pela tv a imagem da cornada que recebera. Li nos jornais sobre sua recuperação e assisti com assombro a entrevista em que dizia que queria voltar a tourear. Comecei a ver ali uma boa história e tentei contatá-lo. Para a minha surpresa, no final de fevereiro, em uma manhã de ressaca, recebi uma telefonema do próprio. Dizia que tinha recebido minha mensagem, mas que gostaria de esperar para dar a entrevista. Estava se preparando para retornar e preferia se concentrar nisso. Ficou a promessa do encontro.

Desde aquela ligação até que nos vimos foram quase sete meses. Nesse tempo – e paralelo a outros trabalhos, claro – tratei de conversar com o máximo possível de pessoas (algumas delas muito próximas a Padilla) para aprender sobre o universo das touradas e sobre a vida daquele personagem. No dia em que por fim sentei-me para entrevistá-lo havia duas perguntas que realmente queria que ele me respondesse: a) por que voltar a tourear? b) É possível, como ele repetia insistentemente a cada entrevista que dava, esquecer o que aconteceu e seguir a vida como se aquilo fosse página virada?

A primeira pergunta eu já mais ou menos que intuía a resposta. “Acho que se ele não voltasse a tourear daria um tiro na cabeça”, me havia dito um conhecido de Padilla. Ele me respondeu que aquilo era sua vida e que ela seria muito vazia se faltassem os touros.

A segunda resposta foi a que mais me tocou. Tenho certa obsessão com a questão do passado e estou recorrentemente olhando para trás e me perguntando “o que teria sido da minha vida se…”. Padilla me disse que não valia a pena pensar nisso, que era preciso olhar para o futuro. Ótima maneira de superar um trauma, creio eu. Mas na prática as coisas são um pouco diferentes. Ele quis voltar ao lugar onde levou a chifrada. Visitou a praça de touros sozinho, refez todos os passos daquele dia da chifrada. Passeou pela arena, pisou no lugar exato onde o animal de 500 quilos lhe acertou. Refez todo o calvário e terminou a visita na enfermaria.

E agora, no dia 10 de outubro, um ano e três dias depois de quase morrer, Padilla voltará a tourear naquela praça. Será para fechar um ciclo, para tentar colocar um ponto final nessa história e, de vez, poder dizer que ela é página virada. E será?

Mas tenho para mim que, ainda que essa nova tarde na praça da desgraça seja triunfal, ela não apagará aquela outra de um ano atrás. Porque, como tão bem escreveu Cortázar, é impossível eliminar o passado. Ele estará ali, sempre, manchando a escritura que está por ser feita. E essa marca, que muitas vezes é incômoda, é o verdadeiro futuro.

Ricardo Viel escreve às segundas

Nota: o perfil de Padilla sai na edição deste mês da revista Piauí

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