Agradável noite de sexta-feira, modesto palco armado em uma zona boêmia de Salvador. Para êxtase da plateia, um senhor de 73 anos vira de ponta-cabeça e permanece por mais de 15 segundos nesta posição, imóvel, plantando bananeira tal qual um desses moleques que vivem a dar cabriolas pelo litoral baiano. Era apenas a menor parte de um grande show. Uma pequena traquinagem para reiterar o espírito pândego do espetáculo.

Apenas mais uma estripulia do cantor mais contagiante e enérgico em atividade no Brasil: Jair Rodrigues. Eu já tive o desplante de derrubá-lo, alguns anos atrás. Era dia do samba, comemoração no Terreiro de Jesus, pude acessar o backstage graças ao convite do sambista-radialista Paulinho Cacá (que era também o cicerone de Jair, como desta vez) e ao tentar cumprimentá-lo, extasiado, ébrio e trôpego, derrubei-o desastrosamente. Arranquei-lhe gargalhadas, e ele levantou-se tranquilizando os seguranças e distribuindo a simpatia que transborda de si tão naturalmente, sem esforço. Demonstra ser daquela gente que é o que é, sem fazer figura no palco.

E no palco, poucos têm a presença dele. Talvez Simonal – pelo que já vi (em videotape) e li, e pelos relatos de meu pai –  possuísse uma capacidade tão particular de dominar o público, hipnotizá-lo e fazê-lo parte do show, derrubando a barreira que separa o artista da patuleia. Barreira que para ele inexiste, aliás. Desceu, cantou com os fãs a clássica “Majestade, O Sabiá” entre abraços e beijos. Energia retribuída com carinho.

O talento vocal dele prescinde desse tipo de recurso como muleta para sucesso. Minutos antes boa parte dos presentes se emocionou com a interpretação vigorosa de “Arrastão”, daquelas sem floreios, no gogó e no coração. Desliza do samba pra bossa, passa pela modinha de viola e não perde a pujança que emoldura seu canto. Sempre será um grande crooner.  Algo inato.

De repente, finge chamar alguém ao palco, puxa imaginariamente pelo braço, ajeita uma cadeira e começa a papear. Não é uma conversa professoral, como a de Eastwood com a cadeira vazia de Obama, mas um papo com a comadre Elis Regina. Ela sempre o acompanha nos shows e ele revive sozinho os duetos que fizeram sucesso no Fino da Bossa. Quem assiste tem certeza que Elis também está no palco, ainda que não se ouça sua voz (certamente ele ouve, pois deixa os espaços certos para que ela cante).

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Na mesma noite, quase no mesmo instante, há alguns quilômetros dali outras centenas de pessoas se aglomeravam para outro tipo de evento. Havia palco, mas não havia show. Era um comício, mas tinha uma estrela. Um senhor de 66 anos de idade que não plantaria bananeira – nem conseguiria provavelmente – porém atrairia para si todos os holofotes da noite.

Luiz Inácio da Silva dispensa apresentações.  Sua simples presença em meio a um séquito de correligionários já é suficiente para garantir importância ao evento. Curado de um câncer na laringe sabe que não deve abusar da fala. Um transtorno para um político, mesmo sem cargo público e nem candidatura em percurso. Lula sabe que o povo reunido na praça Castro Alves veio lhe ouvir.  É preciso ser direto e conciso.

Fala pouco mais de 16 minutos. Tal qual um lutador no ringue que precisa definir o combate antes do gongo, castiga o oponente com sequências combinadas e golpes duros. Seu oponente também é invisível, sequer cita seu nome, mas todos sabem quem é. Desfila algumas firulas, como de praxe, mas concentra-se no alvo e mantém o foco. Como não-candidato, não exibe pudor. Talvez nem o tenha mais, afinal sua popularidade já dizimou esse tipo de temor.

Há uma clara mudança de entonação no discurso Lulista a partir dos anos. A partir daquela carta de 2002.  Nasciam ali novas práticas, novos métodos que se consolidariam nos anos seguintes. A personalização da política abrem caminhos tortuosos. Entretanto, não falarei sobre isso hoje. Foi só um spoiler para uma futura crônica.

O que importa para mim é que na noite da última sexta-feira, Lula deixou claro que no jogo da política quem faz o método é o momento. E se o momento é de insinuar que o alinhamento entre as esferas municipal, estadual e federal é a solução para Salvador, recite-se o mantra. Mesmo que no passado esta mesma prática tenha sido abjectamente usada por adversários históricos.

Há de se elogiar a sinceridade de Lula. Só quem não tem nada a perder poderia assumir uma posição destas.

Ele poderia encerrar a noite cantando como Jair Rodrigues: “Deixa que digam, que pensem, que falem”.

Ou até plantar bananeira. Bananeiras, pelo menos, não falam bobagens.

Alex Rolim escreve às quintas-feiras

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