Um amigo viu uma foto antiga minha pendurada no corredor de casa. Ele disse que eu tenho a mesma cara.

Ele é francês. “Cara”, na língua dele, é físico e mental: a mesma feição, a mesma personalidade, atitude, espírito.

Algumas palavras viajam por dentro de nós como exploradores por desertos ou profundezas marítimas. Elas são extremamente capazes de ver e de contar o que foi visto. Escutar certas palavras é ter certas notícias de nós mesmos. Novidades, segredos ou mesmo histórias que não ouvíamos há muito tempo.

Coisa impossível na televisão.

Porque aquela jornalista famosa ou aquele pastor engravatado não olham nos nossos olhos; seu olhar esbarra e se dissolve na lente da câmera que o filma. Não há nada de menos cinematográfico do que um olhar televisivo (o cinema entendido como a arte da troca de olhares através do tempo e do espaço).

Nem é também profundo ou revelador o que eles dizem. Ou melhor: o que eles falam. As mesas redondas são um ruído heterossexual intenso.

O ex-jogador enumera fatos presentes como se o futuro fosse a mera acumulação dos passados. O time A vai pegar o time B. Isso não significa nada, ao menos, nada além de que está prevista a realização de uma partida. Mas nessas bocas a frase é puro efeito – retórico, másculo, comercial, intelectual. Pela via da paixão, o futebol vira discurso: quer se fazer crer que, por que o time A vai (ou foi) melhor que o B, este deve temer o confronto. Nessas bocas, os números têm força de ato institucional.

Não seria problema se não fosse na TV. Se a paixão (verdadeira) não estivesse a serviço da afirmação, da justificação: porque, afinal, tantas mesas com tantos comentaristas em tantos canais e rádios tantas e tantas vezes por dia? Eles não têm porquê, então iludem. As palavras faladas são o seu truque de mágica.

Dois tons abaixo, tudo dá no mesmo nas mesas de cozinha. Quem faz tanta receita? Tudo é tão gostoso e perfeito e os convidados são só elogios. Todo mundo tem um segredinho que, revelado, faz arrepiar os colegas de cozinha. Como os jornalistas esportivos viraram opinadores, os chefs de cozinha viraram montadores de pratos. Não há mais cozinha na TV, tudo é misancene. O brasileiro negro que cozinha nas novelas não cozinha nos programas de cozinha.

Morto em 1992, Serge Daney escreveu: “A televisão não dá notícias do mundo, ela dá notícias do poder”. Era crítico de cinema.

Diego Damasceno escreve às terças

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