“Meio de saco cheio de tudo”, Ricardo Viel telefonou para Henrique perguntando se o amigo não tinha um texto para esta segunda. A resposta foi “sim, quebro essa. Te mando esse conto-crônica”, e o resultado você lê abaixo.

Despedida

Não é que alguém tenha me contado. Eu vi. Fui testemunha. Assisti todos os capítulos da história (e por isso acho que ela ainda não acabou).

Vi como eles, desde o primeiro dia em que se conheceram, já com as primeiras palavras que trocaram, criaram uma aura que causava espanto e inveja. Eles se olhavam como se no mundo não existisse nada nem ninguém mais.

E me lembro perfeitamente como durante uma conversa num bar, enquanto alguém vomitava uma simplificação estúpida (fazendo pose de autoridade), eles se tocavam por baixo da mesa e se entendiam; e assisti como ele tomou seu braço, e o vi desenhar na palma de sua palma, com o dedo indicador, primeiro um T – e em seguida a olhou, para se assegurar de que ela havia entendido a brincadeira (e recebeu como resposta um balançar de cabeças). Sempre olhando fundo nos olhos dela, continuou; escreveu, pausadamente, um E, e em seguida um A, e um M bem construído. [E dentro de mim foi crescendo algo que era uma mistura de angústia, de apreensão e depois uma alegria quando decifrei a mensagem que estavam construindo]. E o final foi com um perfeito e enorme O, circulado três vezes. A resposta foi um duplo piscar de olhos, marcado, e uma boca que pronunciou, sem emitir qualquer som, a frase: “eu também”.  Era assim, nada nem ninguém importava, porque eles sozinhos eram o mundo inteiro.

Foi divertido acompanhar como os demais se dividiam entre os que apostavam que não, que entre eles não podia haver algo, porque eram amigos demais, cúmplices demais, e se davam demasiado bem para serem um casal (todos argumentos perfeitamente plausíveis, que quase me convenceram); e do lado contrário estavam os que tinham certeza que daquela junção não podia acontecer outra coisa que não fosse um amor carnal, dos que se impõe sobre qualquer razão ou circunstância.

Fui testemunha como, com cara séria, ele disparava elogios a ela, e dizia que era a mulher mais doce e linda e inteligente e encantadora do mundo, mas que não, “infelizmente”, entre eles nunca havia acontecido nada (“quisera eu”, completava). E como ela, de tanto que lhe perguntavam, relatou com tamanho detalhe tudo o que eles estavam vivendo, que ninguém acreditou (parecia algo impossível de existir).

E é claro que eu estava no dia da rosa. Disseram tchau, ele virou à esquerda e ela seguiu reto. Assim que ela virou as costas, vi como ele deu a volta na quadra, arrancou uma flor da roseira que havia na esquina, e se sentou na frente da casa dela, como se tivesse passado ali toda a tarde esperando sua chegada. E tenho gravado na memória o sorriso que ela abriu quando entendeu que sim, era ele – quem mais podia ser? – ali no degrau, passando frio, com uma rosa vermelha na mão.

Também sofri quando se aproximou a hora da despedida, e vi como eles se enganaram tão bem a ponto de dizerem adeus como quem diz até “amanhã cedo passo na tua casa”.

E agora, depois de acompanhá-lo murchar qual girassol sem luz (de dar pena), de vê-la vagar vazia por ai, fazendo de conta que anda bem e que não pensa nele, me parece absurda toda essa situação. Ele dizendo que não moverá um dedo para voltar a encontra-la, porque “a distância é a mesma” e “em nenhum lugar está escrito que sou eu que tenho que ir atrás dela”; e ela, cheia de medos e com a falsa imagem “sou independente e não preciso de ninguém”, esperando ansiosamente que ele um dia escreva dizendo que já não aguenta mais, que precisa vê-la, e que chega amanhã por volta das quatro (“pego um táxi e vou te encontrar”).

Porque o que eles se negam a aceitar é que histórias assim não acontecem todos os dias, e quando acontecem é preciso fazer de tudo, usar todas as forças e meios –  girar o eixo da terra, se preciso for – para que essas duas pessoas voltem a se encontrar, voltem a criar esses momentos que dão sentido à vida, e transformem aquele adeus em um “já não aguentava mais de saudades, promete que não nos separaremos nunca mais?”.

Henrique de Melo Sabines é amigo de Ricardo Viel, quem, de melhor humor (espera-se), volta na próxima segunda

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