Peço-lhes licença para deixar a crônica que faria neste mês* para o outro, e tratar aqui de um assunto que me enche não tanto de indignação quanto de verdadeira preguiça.

É que um meu amigo, que é designer e trabalha numa agência de publicidade em São Paulo, escreveu-me outro dia dando notícia de que, por lá, anda circulando entre as agências de publicidade uma pitoresca promoção que promete premiar os profissionais que ganham os menores salários nessas empresas com uma viagem inteiramente grátis a Buenos Aires.

Na campanha, cada agência publicitária concorre enviando um vídeo em que o “curico” [é como diz o neolinguajar noveleiro] mais curioso que houver em cuja empresa deve aparecer ocupando a função de presidente e expondo douta argumentação para aprovar ou não as propostas de propagandas a ele submetidas por “diretores de arte” e “redatores” da dita cuja.

O prêmio se chama “El ojo 2012” e seu lema (ou slogan, não sei, ajudem-me os que de publicidade entenderem) é “Eu vejo tudo, eu sei de tudo”. Vossas mercês podem, agora mesmo ou depois de lerem esse bolodório, clicar aqui [http://www.euvejotudo.com.br/] e ver com vossos próprios ojos.

Por profissionais com os menores salários entenda-se porteiros, copeiras, serventes e ajudantes de serviços gerais em geral. Profissionais que, na propaganda promocional da campanha (oh, odiosa terminologia!), aparecem (ou são representados) ridiculamente, como se fossem “sócios-fundadores” da agência, figuras onipresentes que de tudo sabem e de tudo vêem, mas que de nada entendem – porque (e isto sou eu quem digo tão expressamente quanto diz o tal vídeo nas entrelinhas) são burros feito jumentos.

“Esse aqui é o melhor porque não entendi porra nenhuma”, diz no vídeo uma senhora apresentada como “Solidá”, copeira da agência África, como julgasse um trabalho – para não me deixar mentir demais. No layout do site, letras cursivas enoveladas, ornadas por uma profusão de recortes amontoados, mimetizam extremas cafonice e mau gosto. No fundo musical, um xotezinho com sanfona e triângulo, sobre o qual um cantor anasala a voz, mimetiza o que seria um sotaque supostamente “nordestino”.

O assunto do e-mail do meu amigo era assim: “Publicitário, esse bicho preconceituoso”. No corpo da mensagem, dizia: “E a campanha é basicamente chamar de idiota as pessoas que têm os salários mais baixos na agência e botar uma trilha “nordestina” – porque (né?) copeira é tudo nordestina mesmo.

Escroto. Eu odeio o sentido de “mascote” que as pessoas dão a esses profissionais. Tem muito disso em empresa, e eu acho escroto: pega o faxineiro, a copeira, e trata como um macaquinho engraçado e querido, que distribui cafés e fala engraçado. Não é como um igual, é um bichinho simpático. E essa ‘campanha’ aí perpetua isso sem a menor vergonha, achando totalmente natural.”

Ora: notem vossas mercês que estamos diante de uma combinação molotoviana de ingredientes como “idotice”, “cafonice”, “mascote”, “copeira/faxineiro/porteiro”, “macaquinho engraçado” e… “nordestino”.

***

Poupo-lhes do teorema – o corolário é: “nordestino”.

Do que me pergunto: quem, nascido e criado nos estados que formam a região nordeste do Brasil, se sente “nordestino”? Profundamente “nordestino”, quero dizer. Pois tendo a crer que os naturais de Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia sentem-se apenas maranhenses, piauienses, cearenses, potiguares, paraibanos, pernambucanos, alagoanos, sergipanos e (como eu) baianos – porque cada um desses, afinal, é, mais que mero gentílico, que mero designativo, um conceito afetivo.

Tendo a crer nisso tanto quanto duvido que qualquer um deles (de nós) se reconheça como “nordestino”. Simplesmente porque o “nordestino” não existe: é um conceito forjado no centro-sul do país para designar todos esses “mascotes exógenos” importados deste “outro mundo” chamado “Nordeste”. Conceito que, talvez por ter o condão de manter-se politicamente correto (afinal, Bahia é ou não é Nordeste, Ricardo, seu chato do c$%&*?) sem deixar de carregar um conjunto enorme de preconceitos (haja vista os acima listados), tem ganhado um perigoso status de lugar-comum. Perigoso porque, pescando pela memória, lembro de já tê-lo ouvido impregnado até mesmo na fala de “sudestinos” e “sulistas” da maior valia, donos de minha sempiterna estima.

Será que exagero na reflexão, amigos? Pois rogo-lhes que façam esse teste os nascidos em São Paulo, no Rio, no Rio Grande do Sul etc, para que por favor não me deixem passar por demasiado precipitado ou tolo: você, nascido em São Paulo, se reconhece “sudestino”? E você, do Rio? Amigo de Porto Alegre: você se sente “sulista”? Apostaria que não, que vocês se sabem tão paulistas, cariocas ou gaúchos quanto eu me sei baiano.

Já vou concluindo, meritíssimo. Data venia, essa história toda me faz lembrar que, na Itália (e só na Itália, ao que parece), forjou-se nos últimos anos o termo “extracomunitario” para designar toda aquela escória preta, vermelha, amarela (e branca até) que não nasceu na União Européia. Um romeno é tão extracomunitario quanto um marroquino. Um boliviano o é tanto quanto um chinês. Um coreano, tanto quanto um sudanês. “Extracomunitari” são todos os “de fora” – enquanto não incomodam, porque quando incomodam, ganham sobrenome: “extracomunitari di merda”.

Ignorância por ignorância, até entendo a dos italianos: reconforto-me imaginando que, coitados, jamais aceitaram a derrocada de Roma e, hoje, vivem das aparências, gabando-se de gabanas e armando-se de armanis para expulsar, quixotescamente, as invasoras hordas bárbaras.

Já a nossa, perdoem-me, mas não entendo: a quem queremos pintar como bárbaros, se somos todos farinha do mesmo saco, caras-pálidas?

***

Em tempo: talvez a única chave de leitura que salve um pouco o bendito do prêmio seja a que leva à conclusão de que a genialidade de um chairman de agência publicitária é tão genial quanto a de um especialista em servir cafezinho.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos.

*Texto originalmente publicado no Nota de Rodapé, blog onde colaboro mensalmente

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