Estava pichado no muro perto da estação do metrô

Já sorriu hoje? 

E eu que tinha acordado há tão poucos minutos não pude pensar numa resposta. O que fiz foi lembrar de outra frase, num ponto de ônibus da cercania

Já abraçou alguém hoje? 

Talvez fossem obra da mesma pessoa ou coletivo de artistas, porque quadros já não dizem nada. E como memória é terço, revi um adesivo que uma empresa espalhou por aí

Você já olhou nos olhos de alguém hoje?

Era só uma dessas propagandas safadas, com indicação de tag para espalhar no twitter. Mas teve também aquele carrinho de pipoca cheio de guarda-chuvas, ali embaixo do viaduto, que rogava em letras vermelhas e laranjas

Perca tempo

E nessa hora corri para alcançar o sinal que fechava.

Porque o clima anda desértico e a pressa vem antes de os homens existirem, é preciso ensiná-los a viver. Preceitos básicos. Sorrir. Abraçar. Ver. Perder tempo. Está anotando?

Tudo isso nos levará a um futuro mais brilhante, no qual pessoas serão gente e não zumbis autômatos.

Tenho um erro, porque ao invés de me alegrar, essas “intervenções urbanas” me deprimem.  Minha desconfiança é que artistas e publicitários estão cada dia mais plastificados, então pedem que os outros sintam por eles. A certeza é que a praga da autoajuda migrou dos livros para a internet e agora ameaça tomar definitivamente as ruas, transformando a felicidade num direito obrigatório do cidadão.

Quando todos estiverem sorrindo antes de pegar o metrô seremos, enfim, robôs que sorriem.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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