Sugere-nos o dramaturgo grego Ésquilo que a luta entre Ipomedonte, o atacante, e Hipérbio, o defensor da porta de Atenas (uma das sete entradas da cidade de Tebas prestes a ser invadida), seria, na verdade, a atualização de uma luta anterior – e mitológica – entre Tifão, o monstro, e Zeus, o soberano dos deuses. A prova, aliás, se vê nos escudos dos contendores: no de Ipomedonte está gravado Tifão; no de Hipérbio, Zeus.

A luta, no mito, quem vence é Zeus, que soterra Tifão sob o monte Etna, sua sepultura – cujas chamas e lavas (das quais já pude sentir in loco o odor sulfúrico, ou sulfuroso, não sei) provêm do fogo que o monstro terrível expele.

Da luta entre Ipomedonte e Hipérbio, não arrisco precisar o resultado, mas certamente o vencedor terá sido Hipérbio, já que, ao final da história, Tebas resiste à invasão dos argivos.

***

Outra luta que não se explica apenas por si mesma, mais bem como produto de uma rivalidade anterior, foi a que acometeu Maneco Uriarte e Duncan, dois jovens amigos, personagens do escritor argentino Jorge Luis Borges no conto “El encuentro”.

Meio ébrios durante um churrasco com um grupo de amigos num sítio nos arrabaldes de Buenos Aires, os dois se desafiam para um duelo de facas. Entre as opções na estante do anfitrião, colecionador de armas brancas, Uriarte escolhe uma adaga com um gavião em forma de U no cabo; e Duncan pega uma faquinha, em cuja empunhadura se via uma pequena árvore.

A brincadeira entre amigos perde para o calor da batalha, e por fim Uriarte fere de morte o amigo.

O que se descobre, depois, é que dois outros gaúchos (dos argentinos, não dos nossos) lendários, inimigos mortais, já haviam portado, no passado, facas iguais às dos garotos que se enfrentaram no sítio. Eram Juan de Almada – dono de uma adaga de gavião em U – e Juan de Almanza – dono de uma faquinha de arvorezinha no cabo.

O povo contava que os dois se haviam perseguido por anos, tendo morrido sem jamais terem se encontrado. A razão da rivalidade era porque as gentes confundiam um com o outro, dada a semelhança dos nomes.

Tudo leva a crer que o ódio ficara impregnado nas facas, que por fim cumpriram por si mesmas seu destino sangrento, usando os jovens como mero veículo.

***

Outras dessas batalhas prefiguradas certamente se encontrarão literatura a fora. Eu, um dia, ainda darei minha contribuição a esse estoque infinito.

Contarei, quando já mais ninguém se lembrar que eles um dia existiram, da rivalidade tão mordaz quanto gratuita entre um pugilista baiano – Reginaldo Hollyfield – e outro pernambucano – Luciano Todo-Duro.

Lembrarei, ilustrando com detalhes (muitos dos quais registrados no documentário “Vou estraçaiá”, dirigido por Tiago Leitão e produzido pela Opara Filmes, assistam vocês depois), de quão ferrenha terá sido tal rivalidade: eram dois homens simples, do povo, que porém não podiam sentir o cheiro um do outro que se atracavam – em nome, diziam, da rixa histórica entre Pernambuco e a Bahia.

Sugerirei, à guisa de uma mitologia nossa, que os dois não passavam de marionetes de uma rivalidade entre duas outras almas, que terão vagado por séculos até encarnar neles. E então falarei das diferenças entre Duarte Coelho, o primeiro donatário da capitania de Pernambuco, e Pereira Coutinho (o Rusticão), primeiro donatário da Bahia de Todos os Santos.

Rememorarei a “Nova Lusitânia” que Duarte tentou erguer em Pernambuco. Que não abonava a lambança sexual entre portugueses e índias – queria, em vez disso, que eles casassem com elas. Que era exemplo de disciplina pessoal, austeridade e autoridade. Que era, ademais, como que culto, vide o ter escolhido Olinda, nome de uma das personagens de Amadis de Gaula, livro de cavalaria muito lido naquele tempo, para batizar a vila que fundara na terra a si concedida por El Rei. E que sua colônia é até hoje citada como único exemplo de sucesso na primeira fase da colonização portuguesa do Brasil.

Aí oporei Duarte ao Rusticão – cuja fama até no nome o precede. Contarei que, ao aportar na Bahia, este último fundou a Vila Velha, continuidade oportunista da vila onde o Caramuru já vivia em meio aos índios. Que sob sua gestão (se é que assim podemos chamar) não se pretendeu construir uma “Nova” nada; mas que, ao invés disso, grassaram os desmandos, pois ao mandatário faltava autoridade sobre os colonos por ele próprio trazidos. E que a inimizade com os índios tupinambá fez-se tamanha que, por fim, o Rusticão e boa parte dos seus foram expulsos da terra e, depois, devorados por eles.

Apimentarei a história dizendo que, numa carta ao rei de Portugal, Duarte alfinetou o Pereira, dizendo que este não tinha pulso para “resistir às doidices e desmandos dos doidos e mal ensinados”. E que terá surgido daí a rusga com o Rusticão, que porém não viveu o suficiente para desafiar o patrício a um duelo de facas ou de bacamartes.

Pois o Rusticão, concluirei, achou de encarnar séculos depois em Hollyfield; e Duarte – um tanto menos culto, é verdade – em Todo-Duro (única forma humana entretanto capaz de se defender da fera baiana). A prova é um depoimento do pernambucano sobre o baiano, que aliás está até no filme: “Eu não tenho nada contra ele, não. Ele é que não gosta de mim, não sei por que.”

E a disputa resultará, por fim, em melancólico empate: em seis confrontos nos ringues, três vitórias para cada lado, e as rendas dos embates drenadas por empresários e por toda sorte de oportunistas. O corolário será que os dois, a despeito da fama e da graça que proporcionaram, seguiriam para sempre sendo as mesmas e pobres feras de antes. Tão rivais quanto iguais: vetores de uma rivalidade que nem sequer lhes pertencia.

Um dia ainda escreverei essa história. Um dia, porque hoje é sábado, o sol está brilhando e há cerveja gelada – e em dias assim, não se trabalha.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

Anúncios