Deixa cair a toalha e se vê plena, irretocável, frente ao espelho. Com minúcia, analisa cada trecho do corpo em busca de alguma imperfeição, uma falha. Agarra parte da coxa, aperta com firmeza, e se satisfaz ao concluir que encontrou o que procurava.

Prende o cabelo com a falsa rosa, e esse ato tão banal desencadeia as reações que tanto a aterrorizam. Um leve enjoo e algo parecido a uma dor de cabeça. A memória, que aparentemente dormia tranquila em sua jaula, foi acordada (outra vez).

Quando deixava o pescoço à mostra, ele a beijava com ganas e dizia que aquilo era um convite ao pecado. Sua insolência sempre a assustou e atraiu ao mesmo tempo. Nenhum desconhecido a havia tocado com tanta familiaridade como ele da primeira vez. Quando ainda não eram nada e estavam vestidos e tinham o mundo os vigiando.

Chega mais perto do espelho e se olha nos olhos. E se pergunta o que há naquela imagem da mulher que era quando estava com ele. Ele, ele, ele. Até quando duraria essa volta ao passado? E nele, ficou algo dela?

De tudo fica um pouco, diz Drummond em Resíduo. Da ponte bombardeada, do maço vazio de cigarro, do teu áspero silêncio… “De mim, de ti, de Abelardo”. Um dia ele mostrou a ela esse poema e os dois, sem saber o porquê, se puseram melancólicos.  

Desfaz o penteado. Não há nenhum sentido. Ninguém merece vê-la assim além dele, e ele não está. E amanhã também não estará. E isso basta para que tudo o que já passou não valha mais de nada.

Sai à rua como se todos fossem seus rivais, e os desafia com sua beleza. Em voz baixa cantarola uma canção portuguesa que diz que todo amor do mundo não foi suficiente. “Porque o amor, o amor, o amor não serve de nada”.

Ricardo Viel escreve às segundas

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