Eu detesto trazer más notícias. Mas, na função de emissário de O Purgatório na Cidade Da Bahia para assuntos etílicos-culturais-sincréticos, não posso me furtar de atualizá-los a respeito dos últimos acontecimentos que afligem a Soterópolis.  São as piores notícias, e a minha pena é bem menos atraente que os lábios de Camila Pitanga, eu sei.

Poderia falar sobre a seca que castiga o Estado da Bahia, o descaso do governo com a greve dos professores ou as declarações da ex-panicat Nicole Bahls que abalaram a província. Mas tudo isso é desimportante diante da iminente catástrofe que se avizinha. Haverá choro e ranger de dentes, mas o infortúnio bate à porta: O armazém Espanha – baluarte da sociedade biriteira baiana – fechará as portas.

Ainda aparvalhado pelo triste acontecimento e sob os efeitos da ebriedade da sexta-feira (tremores nas mãos, sudorese e o gosto de cabo de guarda chuva na boca) recorro ao compadre Vítor Rocha para definir o fechamento do Armazém Espanha: Salvador se boicota. Uma urbe com tão escassos botecos de qualidade não pode prescindir do Espanha.

Não me preocupo com a falta de políticos com bons projetos para a cidade. Não me preocupo com a falta de bons equipamentos para a prática esportiva. Pouco me importa a precária mobilidade urbana. Mas a escassez de bons botecos para beber, isso sim, é de tirar o sossego de qualquer vivente.

E o armazém Espanha se enquadra como fiel representante do bom lugar para beber. Onde se discute sobre os percalços da contemporaneidade e a efemeridade da natureza humana. Onde fala-se de Wittgestein e Léo Parangolé na mesma mesa. Onde ainda se tergiversa sobre qualquer assunto sem um maldito barulho em forma de música a concorrer. Um convite à prosa escorreita.

Os armazenistas dominam como poucos essa arte milenar de conversar ao pé do balcão. Ocasionais, assíduos, sabáticos ou mobília – classificação crescente em relação à frequência no ambiente – sabem que um homem só pode ser considerado respeitável após encostar o umbigo apoiando o cotovelo em ângulo reto no balcão. Cerveja trincando acompanhada de fatias de salaminho, cubos de queijo com molho inglês e azeitonas. Esse papo de contra-filé ao molho agridoce  com rodelas de abacaxi ser considerado comida de boteco, convenhamos, é uma excrescência!

Um banheiro nada convidativo para mulheres – um buraco no chão – um pôster do Celta de vigo da temporada 2004/2005 , um enigmático peixe espada  acima das prateleiras cuidadosamente organizadas são detalhes que povoarão para sempre o imaginário dos armazenistas. O Espanha já tem data para se despedir – próximo 9 de junho conforme apurei. Deixará saudosas lembranças em nossos corações.

O tilingar do abridor de garrafas no casco de cerveja como senha para mais uma ampola que se apresenta para ser servida é um som que acalenta um estilo de comércio que está deixando de existir. A casmurrice do espanhol dono do armazém está longe de ser um fardo, é na verdade uma ranhetice daquelas que conquistam, pois serve de contraponto a preocupação de oferecer o melhor que um boteco pode: Um ambiente agradável e uma cerveja tão gelada que dispensa caixa térmica.

O armazém Espanha fechará as portas em definitivo. O som da lança metálica contra o chão – outra senha para avisar a clientela que é chegada a hora de retirar-se do recinto – ecoará pela última vez. “A felicidade não existe” me alerta o decano armazenista Setaro entre uma e outra tragada. Talvez. Mas, se só por um dia ela existiu, passou no armazém Espanha pra tomar uma.

Alex Rolim escreve, sempre de ressaca, aos sábados

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