Falei aqui uma vez sobre entrar no quadro e não querer sair mais. O assunto voltou quando li esta entrevista de Alan Moore.

Moore reconta uma velha história: sente-se enganado pela DC Comics porque esta teria descumprido um trato feito à época do lançamento de Watchmen (1986-87). Esgotada uma primeira edição, os direitos sobre o livro passariam para os autores (o texto é de Moore e as ilustrações de Dave Gibbons). Ocorre que Watchmen nunca esgotou. Ou, segundo Moore, que a DC nunca o deixou esgotar.

A pendenga também não se esgota. A DC lança em breve uma série do tipo «Watchmen:  antes e depois». Desenhistas e escritores foram convidados para assumi-la. Moore, é claro, é absolutamente contra. Vê sua obra como fechada em si mesma. Exige, inclusive, que seja incluso um aviso em cada edição explicitando que ele não participou do projeto .

Acho que a melhor parte da entrevista é quando ele define esse episódio como um sintoma bizarro que atravessa boa parte da industria do entretenimento hoje.

Não é so dinheiro que motiva a nova série, mas uma adequação: o que a DC quer é jogar o leitor de Watchmen numa relação do tipo infinita. Liberando os personagens da trama original, a DC tem a  licença poética, digo, antiética que precisava para explorá-los individualmente de todas as maneiras possíveis, por um tempo virtualmente interminável. Haverá sequências, retornos no tempo, origens reveladas, novas origens mais reveladas ainda, finais, começos, recomeços, universos paralelos, versões em mangá, versões zumbi, animes, filmes e videogames.

O problema não é Watchmen ser sagrado. O problema é que estamos tão acostumados a isso, que tudo é feito às claras. Ou alguém acha normal uma notícia do tipo «Lucro de Vingadores garante sequência e Homem de Ferro 3» ?

Que esses filmes sejam uma merda (nem todos são) ou que a gente vá no cinema vê-los justamente porque não quer pensar (justo, mas pensar não estraga a diversão) não faz com que essa lógica de produção da qual eles saem seja inofensiva.

É justamente o que diz Alan Moore. O entertainment virou um fluxo cada vez mais ralo e rápido de coisas que passam sem deixar rastro. O público não tem de ser mais satisfeito (satisfação indica saciedade, fim); ele tem que ser fidelizado. Como nas empresas de celular.

E como nas empresas de fast-food, não se não fala mais em filmes, mas em franquias (um executivo de Vingadores usou essa palavra para falar do filme). Lança-se não mais a promessa de umas boas duas horas de divertimento, mas a garantia de que daqui a seis meses tem mais.

Por isso, nem pense em mudar de canal.

Diego Damasceno escreve às terças

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