Na minha casa provisória aqui na França, chegou um hóspede novo. Com ele e sem o dono, somos quatro. Um é pianista profissional.

Outro dia na cozinha, o novo estava saindo quando chegou o pianista. Sorriram e o segundo perguntou se seus ensaios diários incomodavam, explicando ainda que poderiam combinar horários para alternar silêncio e música. A resposta do primeiro veio entre um vacilo e uma pressa : “No, I love piano”.

Nenhum dos dois sabe, mas a cena me diverte pela sua repetição. Duas semanas antes, quando houve nova troca (saiu um programador e chegou um estudante), no primeiro encontro o pianista repetiu a gentileza e a resposta do recém-chegado foi : “No, no, it’s beautiful”.

Não sei se é porque não falo inglês, mas “love” e “beautiful” têm uma força considerável para mim. São palavras que, ditas, passam rapidamente do abstrato ao quase físico. Há palavras assim, que quando são ditas sem convicção tornam-se antônimos de si mesmas : ao invés de afirmar, “desafirmam” : revelam o contrário do que quem as disse queria dizer.

Pois foi assim que escutei meus vizinhos falarem sobre suas relações de amor e beleza com piano. Mais um jeito apressado de retribuir a gentileza e evitar atrito do que uma confissão. Ou então mais um episódio do choque de mentalidades que o estrangeiro enfrenta no novo destino a que chega: “evitar atrito” está bem próximo de “ser simpático” no dicionário de generalidades sobre brasileiros na Europa. O choque então vem do fato de que essas noções não são claras para muitos europeus. Para alguns, elas nem fazem sentido. Incomoda ou não incomoda ? Onde o brasileiro pode ver uma perspectiva de um laço fraterno, o europeu muitas vezes só espera uma resposta.

Mas há algo mais. Não acredito que “beautiful” e “love” seriam as palavras se o pianista tocasse cavaquinho. Ou gaita de foles. Gostar de piano não faz mal a ninguém, mesmo que, no fundo, meus vizinhos tenham passado a vida sem colocar uma sonata de Brahms no toca-discos ou sem assistir um numero de Thelonius Monk no Youtube. Não faz mal, só faz bem dizer : eu gosto de piano. É cool, é culto, é clássico, é agradável, é sensível, é dificil, é exigente, é discreto…

Qualquer narrativa pessoal, essas versões da nossa vida que a gente mesmo cria mesmo antes de viver, e sem mesmo saber se vai poder vivê-las, qualquer auto-ficção fica ainda melhor com o piano. E talvez por isso mesmo, na falta de um final melhor para esse texto, eu tenha decidido dizer:  fico por aqui, que meu vizinho vai começar a ensaiar e eu gosto de ouvir.

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