“Somos lo que hemos leído.”

Uma rápida busca no “infalível” Google nos aponta uma dezena de supostos autores dessa frase – que tem tradução falha em português, já que “somos o que lemos” pode dar uma falsa impressão de presente, quando de fato falamos de um passado que tem continuidade.

Deixando de lado o problema da tradução e seja quem for o pai da criatura, a verdade é que essa é uma daquelas ideias universais que pode muito bem ser considerada de autoria coletiva, de todos aqueles que acreditamos que os livros nos formam.

Sempre gostei dessa afirmação, mas com o passar do tempo comecei a achar necessário um complemento: somos a soma dos livros e também dos lugares, músicas, filmes e, principalmente, das pessoas que cruzaram nosso caminho durante a vida, defendia eu.

É um mosaico no qual vamos colando ladrilhos e que vai ganhando forma até fazer algum sentido. A figura resultado desse acúmulo de experiências é, no final das contas, o que somos nós.

Mas nossa vida – e a figura que criamos durante ela – não é perfeita, não é feita só de boas experiências. Nela há vazios. Os ladrilhos que nunca foram colocados ou que caíram prematuramente de nossa obra também fazem parte dela.

O jornalista e escritor Juan Cruz diz em seu último livro (Egos Revueltos) que somos o que lemos e também o que perdemos durante a vida (“somos lo que hemos leído y lo que hemos perdido”). Ideia parecida à do cineasta Alejandro Iñarritu, que dedica um de seus filmes (Amores Perros) ao filho falecido: “A Luciano, porque también somos lo que hemos perdido”.

Cruz e Iñarritu me abriram os olhos para a necessidade de incluir as perdas no conjunto que nos forma.

A importância (ou peso) desses dissabores na imagem que somos depende de dois fatores. O primeiro deles está ligado ao acaso (os que acreditam em uma força suprema podem chamá-lo de outra maneira). Depende da sorte que tivemos em, no decorrer da vida, acumular poucas perdas. O segundo fator está relacionado ao modo como cada um de nós administramos essas ausências. Há quem saiba lidar melhor com isso, tirar algum ensinamento e aceitar que esse vazio faz parte da vida; e há os que se amarguram e passam a viver um luto eterno, que pode ser mascarado com a não aceitação da ausência.

É essa equação entre as perdas e os acúmulos – e a maneira como administramos ambos – que vai ditar o tamanho e a beleza da figura que construiremos durante a vida.

Esse mosaico será formado e reformado constantemente, até o dia em que nós, que também somos ladrilhos na obra de outros, somos obrigados a abandonar essa construção.

Quando chegar a hora, seremos ausência na imagem daquelas pessoas que cruzaram nosso caminho, de cuja vida marcamos. Passaremos de ladrilho a vazio. E deixaremos de ser acúmulo para transformar-nos em perda.

Ricardo Viel escreve às segundas

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