Mestre Lourimbau letrou assim sua canção “Branco com Preto”:

E eu amo a eles dois:
Primeiro Deus, primeiro Deus;
Depois sou eu, sou eu, sou eu.

Teve talvez a felicidade de condensar nesses três versos a complexa estrutura mítica sobre cuja teia ergueu-se a Bahia – enredo, por metonímia, de um certo Brasil.

Porque o que acontece é que, por aqui, às tradições religiosas vindas d’África – aliás, vamos começar a ser mais precisos ao falarmos disso: ao culto às divindades iorubás, que teve a mais forte ascensão sobre os dos outros povos aqui escravizados – não restou outro caminho senão o de buscar abrigo das perseguições à sombra do cristianismo à moda lusitana (aquele sempre machão violento, mas meio permissivo sabe-se lá por que buraco).

E então os orixás, que em África regiam nações, ao chegar ao Brasil como que viram-se obrigados a ceder suas primazias ao Deus católico, entidade misteriosa, obscura e centralizadora de todos os poderes sobre a criação e as criaturas. O que, ao que parece, não lhes arrancou pedaço nenhum – antes, aliás, talvez lhes tenha acentuado a utilidade aos homens. É como se a escravidão, ao despedaçar a autonomia dos povos africanos, no plano concreto, tivesse ocasionado baque semelhante nas jurisdições dos orixás e, consequentemente, em todo o seu esquema mítico, que então necessitou de ser reformulado no Brasil.

Tanto é que, nas religiões afro-brasileiras, há lugar reservado a uma entidade suprema de onde emana o poder criador do céu, da terra e das criaturas – muito embora o papel dessa força, análoga à do Deus judaico-cristão (Olodumaré, refere Pierre Verger; Ôlôrún, nos fala Edison Carneiro) seja quase que meramente figurativo.

Ocupa lugar qual o de – e aqui, todo respeito – uma Rainha da Inglaterra: “Todas as qualidades dos deuses das religiões universais, como o cristianismo e o maometismo, são atribuidas à suprema divindade, que não tem altares, nem culto organizado, nem se pode representar materialmente. Tendo criado o céu e a terra, porém Ôlôrún (…) jamais voltou a intervir nas coisas da Criação”, anota Edison Carneiro em seu Candomblés da Bahia.

Daí a riqueza da coisa toda.

Porque enquanto na mitologia judaico-cristã as atenções concorrem sempre para a figura do Deus supremo – que recebe e despacha todos os pedidos dos homens, diretamente ou por meio do Cristo, da Virgem ou dos santos, intercessores dos homens junto ao Homem – , na mitologia afro-brasileira recorre-se bem menos a tal Força Suprema: o povo se resolve direto com a divindade, i.e. o orixá, que lhe diz respeito. Como fazem os irmãos que, quando brigam, em vez de recorrer a papai e mamãe, antes resolvem-se sozinhos, entre si, em vez de levar a querela para casa.

E assim, aqui, a correspondência dos orixás aos poucos passou a ser menos com as nações e mais com os indivíduos. Daí o costume de, na Bahia, por exemplo, cada pessoa – mais do que cada grupo, nação ou etnia – ser regido por um (ou alguns) orixá(s). Uma tradição em que o homem figura como uma atualização direta (no plano real, concreto) da divindade (plano espiritual, mítico). Um esquema mítico em que as divindades emanam dos próprios homens (“Antigamente os orixás eram homens”, refere Verger), à guisa de arquétipos do humano, cada uma contendo, divinamente e sem a necessidade de corresponder a um modelo único de conduta e virtude, a porção de luz e de sombra que por essência lhe couber.

Aí voltamos a Mestre Lourimbau: Primeiro Deus – o deus católico, dos Brancos, que se satisfaz ao primeiro aceno de submissão, ainda que o gesto seja vazio de entendimento, ou por mero medo da repressão – Depois sou eu – o eu-deus que rege cada homem disperso pela escravidão nesse Brasil varonil.

Tudo isso longe da intenção de decretar entre todas uma fé vencedora – pessoalmente, me interessam menos os cultos e mais as visões de mundo que neles se encerram. Compreendê-las é compreender a nós mesmos, sendo menos importante o pertencer a essa ou àquela religião.

O que interessa é que essa constituição mítica nos lembre sempre que nossa história – a da Bahia, a do Brasil – é também (é principalmente) a história da escravidão: Pretos e brancos, se orientem – e não se dispensem, que o batente é quente, conclui Lourimbau.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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