Estragon diz “Podemos começar de qualquer parte” e Vladimir responde “Podemos, mas temos que decidir”. E Estragon novamente “É mesmo”.

O que acontece é ficarem parados, esperando Godot, que nunca vem.

A vida toda caber nesse pequeno diálogo é algo que me assombra. Para que não fugisse nunca de mim, o aprisionei com o celular e fico olhando para ele entre um aborrecimento e uma alegria, como um guia de verdade oculta.

Começar de qualquer parte é antes recomeçar, essa atividade que de tão cotidiana parece tão impossível.

Porque tomei a decisão ando atemorizada como se fosse coisa de irremediável abandono, quero ficar infinitamente esperando Godot, mas aí lembro que pequena passei por desvios ainda hoje piores, tendo que trocar as amizades profundas que só moram na infância por versinhos que prometiam eternidade em diários coloridos, sem metafísica. Sorria sempre, pois mais vale um sorriso triste do que a tristeza de não saber sorrir.

E eu aparentemente sobrevivi, sempre. Então digo É mesmo. E vou.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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