* A equipe de O Purgatório está de férias até o dia 8 de janeiro. Até lá, republicaremos diariamente uma seleção dos melhores textos de nossos colunistas ao longo deste ano. Bom fim de ano a todos e até 2012!

Outro dia fui visitar um terreiro de candomblé. Estava mais envergonhada que de costume por ter que espraiar ali minha ignorância – por mais que pesquise antes, em variadas fontes, essa é uma sensação da qual, suspeito, nunca vou conseguir me livrar.

Pois por sorte a mãe de santo que fui entrevistar era uma senhorinha muito fofa e sábia, que fez pouco caso das minhas perguntas mais ingênuas ou impertinentes. Terminada a entrevista, foi me mostrar sua roça, ladeada pelas casinhas dos santos. Uma delas estava sem telhado, o que chamou a atenção do fotógrafo. “É que aí é a casa de Tempo”, disse.

Na hora, confesso, não dei muita liga. Mas depois essa imagem começou a me perseguir e fiquei muitas semanas pensando nisso (ainda estou, como vêem). Explico: Tempo é um inquice, uma divindade cultuada nos terreiros de Nação Angola. Ali, naquele espaço, os homens, tão comprovadamente acabáveis, prestam reverência ao infinito, ao que, sendo bom, mau ou neutro, veio, é ou está por vir. A casa de Tempo não tem telhas porque ele é o “dono de tudo”. Pode haver coisa mais linda?

Mais ou menos nessa época li no jornal uma matéria sobre Caio Fernando Abreu, morto há 15 anos. O repórter resgatou umas cartas que Caio enviou à dramaturga baiana Aninha Franco. Numa delas se lê: “Um dia ainda vamos rir disso tudo? Se Deus quiser. Com salto 11, bebendo champanhe em altíssimas taças de cristal, no réveillon de 1999 para 2000. Topas? Prometo usar luvas de cano longo e decote profundíssimo (pelo menos nas costas), com saia justa de fenda em nesga. Minhas pernas-que-abalaram-Paris, como as de Marlene Dietrich, hão de resistir aos cruéis embates do Tempo – esse orixá que não incorpora porque humano algum suportaria seu peso.”

Mesmo sem incorporá-lo, já é difícil para qualquer mortal acompanhar seu peso. Mas ando consolando minhas angústias a este respeito (envelhecer, morrer, estar aqui agora e não em outro lugar) tentando lembrar da casinha de Tempo, supremo, e repetindo, como mantra, aqueles versos da canção de Caetano. Às vezes funciona.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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