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Evolução no transporte.

A porta de ferro pesada bateu, como em todas às manhãs, e já havia a fila formada por uma maioria de senhoras em frente à igreja católica vizinha.

Faltavam dois minutos para as dez menos dez e a catraca fez som de nova.

Resolvi trocar o transporte público por uma bicicleta e fiz o primeiro trajeto sobre duas rodas até o meu destino diário.

Duas ladeiras abaixo, estava no Paseo del Prado, avenida larga com nome de museu. Imensidão à frente e a dúvida sobre se chegaria atrasado ou não.

Otimista, acredito que tardarei apenas alguns minutos mais em relação ao ônibus, que tem linha exclusiva de verdade por aqui e, neste caso, é mais eficiente que o metrô.

Não sou adepto aos fones quando estou na rua. Com o ouvido livre me sinto mais presente e percebo o crac das folhas outonais esmagadas pelas rodas.

Um termômetro, 6º. Bem que me disseram para comprar luvas.

O vento é frio e os olhos lacrimejam, mas prefiro essa sensação ao bafo quente e viciado do trem subterrâneo.

Paro na sinaleira na Praça de Cibeles, antes Praça de Madri, ponto central da cidade e convergência de quatro largas avenidas.

Olho para a esquerda e lá está uma das ruas mais charmosas de um ângulo inédito para mim. Do outro lado, a imponente Porta de Alcalá. Em frente, a bela Casa América. Acho que o estilo é barroco.

Pisquei e passou aquele frescor excessivo na visão.

Olha o quarteto de senhores que toca jazz na rua… Estão completos com o bonito contra-baixo e tudo, mas apenas conversam. Um tchauzinho trocado por piscadas de olhos e risinhos de canto de boca.

Sigo viagem pelo Paseo Recoletos, avenida contígua. Muito carro, muito estreito, pouco espaço. Acho que esse caminho pode não ser o mais confortável.

A Biblioteca Nacional e os Jardins do Descobrimento amenizam a tensão. Driblo executivos engravatados em frente ao prédio local da Comissão Europeia.

Faço ora de carro, na rua, ora de pedestre, na calçada, devagarinho.

Na faixa de pedestre sem sinal, aperto o freio, paro e o rapaz sorri, antes de cruzar. Sigo.

Vou para um lado, a mulher também, viro para o outro, ela me acompanha. Quase uma batida. Coloco o pé no chão e ela ri. Pede perdão e percebo que gostou do estilo da bike: rodas curtas, selim e guidão altos.

Rua perpendicular, um cruzamento sem chances de atravessar e, enfim, uma ciclovia, ainda que estreitinha, na Rua Serrano – essa me leva ao destino final.

Alegria de pobre: novo cruzamento e fim da exclusiva.

Subida, mais espaço e paz, reino na calçada. Mas é difícil, marcha leve e algo de calor, apesar do frio.

Cruzo a Praça da República Argentina, depois de El Salvador. A Avenida América ficou para o outro lado.

Uma câmera, outra, mais uma e mais e mais. Embaixada de Marrocos.

Há mais câmeras que bicicletas nesta cidade, que nem é tão vigiada assim.

Ali está a última parada de ônibus do meu antigo trajeto motorizado.

Cheguei, dez e vinte, fecho o cadeado e estou lá antes do que normalmente.

Elogio muito o sistema, mas sinto que passei por uma evolução no transporte.

metrô => ônibus => bicicleta.

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