No furdunço da Avenida Sete, em Salvador, a profusão de vermelhos e dourados e cores mil deixa tonto quem não é habitué das caminhadas pré-natalinas naquelas imediações. Em meio a uma variação enorme de papais-noéis – daqueles de brinquedo que escalam as paredes, magrelos de carne o osso na beira da calçada com um megafone nas mãos ou entregando panfletinhos de empréstimos consignados – consigo desanuviar o olhar e descansar um pouco. Faço uma avaliação dos pontos principais da avenida, percebo que duas cores se destacam em meio à paleta natural das ruas: o verde e o amarelo. O verde do umbu e o amarelo da siriguela. Duas frutas/cores da infância, dispostas nos pequenos balcões e barracas nos meio-fios.

Em Euclides da Cunha, cidade do interior nordeste da Bahia, minha avó costumava sentar à porta com uma bacia de umbus. Quando chegava a época da fruta, era um mar verde que invadia a Rua da Usina, vindo dos mais distantes grotões, vendidos a litro, em medida de lata de óleo. Dona Alina tinha uma destreza que sempre prendia a minha atenção: descascava o umbu por completo, sem partir a casca, que tocava o chão antes mesmo de se desgarrar por completo da polpa da fruta. Descascar o umbu era uma arte e ainda dava um upgrade no ato de chupar o umbu: o azedinho da casca era descartado. O umbu descascado era disputado pelos netos e chupava-se a fruta até os dentes ficarem com aquela sensação de que perderam todo o esmalte.

Ali mesmo, na casa da matriarca dos Carmezim, na Rua da Usina, também tinha espaço cativo para as siriguelas. O problema era conseguir que elas chegassem até o amarelo-alaranjado de quando estão maduras. O pé de siriguela que ficava no quintal – ou no “muro”, como minha avó costumava se referir ao quintal – quase não chegava a apresentar sua cara de pé “carregado” porque brigávamos para pegar a fruta ainda devez (isso existe?). Siriguela madura era melhor achar na rua. No quintal de minha avó, arrancávamos a fruta ainda na mudança do verde para o amarelo, pegávamos uma pitadinha de sal num pires e melávamos a siriguela no sal. O quase-doce quase-azedo da fruta com o sal era uma mistura que agradava aos nossos paladares de crianças.

Aproveitando o ensejo das festas, o clima de afeto, decreto o Tempo dos Umbus e das Siriguelas em homenagem à minha avó, falecida em abril de 2010.

Carmezim escreve às quartas

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