Luiz Caldas sustenta, na frase final da entrevista que concedeu à boa revista Bequadro, lançada outro dia em Salvador, que grandes músicos migram para a axé music e para o pagode (baiano) “porque o cara precisa pagar a conta. A Coelba [companhia de energia elétrica da Bahia] não quer saber se você toca rock ou axé. Corta do mesmo jeito.”

Sábias palavras, Luiz: corta mesmo.

Longe de mim julgar quem quer que seja pelo que quer que faça ou venha a fazer honestamente – porque afinal a mim não permito que julguem; porque emitir juízo sobre outrem é quase sempre hábito de quem desconhece mais do que deveria acerca de si próprio. Mas me atrevo a alertar para certa lógica perniciosa impregnada nessa fala do músico – assim, ao menos, o creio.

Aceitar como fato consumado que o caminho que resta para o músico é migrar para o axé ou para o pagode porque a conta de eletricidade está para vencer significa corroborar por fim uma noção transviada de cidadania: só existe quem, no final das contas, tem uma conta de luz para pagar. Significa assumir a primazia do sacrifício que é (presumo que assim o seja, a partir da convivência com alguns grandes músicos que conheço) tocar uma música limitada e limitante, odiosa, e escamotear questionamentos elementares: “por que diabos eu tenho (que todo mundo tem) que tocar (consumir) axé? por que diabos é que eu tenho (que todo mundo tem) de ter uma conta de luz?”

Parece absurda a segunda interrogação? Pois é justamente esse o caminho que aponta o professor da USP Célio Bermann, especialista em modelos de geração de energia elétrica. Em entrevista à jornalista Eliane Brum a respeito da polêmica do momento, envolvendo a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Vale do Xingu, ele diz assim:

O lógico seria a adoção de energia descentralizada em escala menor, que seja mais bem controlada pela população [a energia solar é um exemplo]. Mas isso não passa pela cabeça porque define inclusive uma outra relação social. Eu também chamo esse programa de “Conta de luz para todos”, porque de repente você fica refém de uma companhia e necessariamente paga conta de luz, quando você poderia criar uma situação de autonomia energética.

N’outro trecho, mais direto ao ponto, ele afirma:

Este é o recado para o leitor: é preciso repensar a relação com a energia e o modelo de desenvolvimento, é preciso mudar o nosso perfil industrial e também é preciso mudar a cultura das pessoas com relação aos hábitos de consumo. Nós precisamos mudar a relação que nos leva a uma cega exaustão de recursos.

Dos recursos naturais, ele quer dizer. Mais simplesmente, da mata, digo eu.

A propósito de mata, andei lendo outro dia sobre Ossain, o senhor das folhas, orixá conhecedor e rei das plantas, de cuja consultoria nenhum outro orixá pode prescindir, sob pena de retumbante fracasso de suas empreitadas.

Aliás, Pierre Verger relata em seu livro de “Lendas Africanas dos Orixás” que Ossain e Orunmilá, o senhor do destino dos homens, tinham uma rixa.

Orunmilá, bem impressionado pelo colega, resolve que Ossain irá trabalhar junto com ele nas sessões de adivinhação que preside. Mas o senhor das folhas sente-se subjugado, e então o rei Ajalayé propõe uma competição para definir de uma vez por todas quem é o mais importante entre os dois.

Fica então definido que Sacrifício, filho de Orunmilá, e Remédio, filho de Ossain, irão competir entre si. Os dois são enterrados em covas de mesma profundidade. Estabelece-se que, após sete dias, será declarado soberano o pai daquele que primeiro responder, de dentro do buraco, ao chamado dos juízes vindo da superfície.

Mas, esperto, Orunmilá dá um jeito de fazer com que seu filho Sacrifício chegue a receber comida debaixo da terra durante os sete dias da disputa. A Remédio, por sua vez, resta usar uns talismãs que possui para encontrar Sacrifício em sua cova e implorar-lhe – coitado – um pouco de alimento. Sacrifício concede – mas com uma condição: que Remédio silenciasse quando fosse chamado e lhe deixasse triunfar na disputa. E assim acontece.

Da competição emana um provérbio: “Sacrifício não deixa remédio falar”. Significando, diz Verger, que Sacrifício é mais eficaz que Remédio.

Razão pela qual Orunmilá tem uma posição mais eficaz que Ossain.

Razão pela qual quer-se construir uma usina em Belo Monte, a um custo de milhares de hectares de mata, noves fora uns R$ 30 bilhões.

Razão pela qual muito músico bom por aí vai continuar tocando axé e pagode.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos e, excepcionalmente, nesta terça.

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